Infelizmente não deu. Tinha tudo pra ser a minha melhor maratona, esta quarta tentativa. Mas parece mesmo que não era o dia. O treinamento e a preparação, acredito eu, foram bem feitos, embora não necessariamente impecáveis. Houve problemas e dificuldades, como era, inclusive, de se esperar. Nem todo o planejamento foi cumprido à risca. Alguns longões ficaram mais curtos (em minutos, já que o princípio da planilha era baseado em tempo e não distância). Mas não faltou dedicação. Foram 94 dias de treinos (incluindo onze provas, que serviram também como tal) em vinte semanas, seis delas de base, no começo do ano. 1066,25 quilômetros rodados em 103 horas e 20 minutos. É doloroso constatar que tudo isso pode se perder por um pequeno detalhe. Mas não quero entrar na onda de achar que foi tempo perdido, que joguei no lixo tanto esforço e coisa e tal. A preparação foi árdua, exigiu muito de mim, me fez abrir mão de outras coisas que poderia e gostaria de fazer. Mas também foi muito gratificante. Transformou alguém que andava desmotivado e fazendo péssimas corridas nos meses finais de 2009 em um novo corredor. Ainda meio lento, pesadão, sem qualquer pinta de atleta, do tipo que ainda ouve piadinha nas ruas e chama a atenção ao lado de gente que tem muito mais o biótipo do corredor clássico. Mas voltando a ser capaz de fazer boas provas, na medida do possível. Melhorando até marcas pessoais em distâncias menores e em provas anteriormente disputadas. Uma parte dos treinos, principalmente os longos, foi feita em conjunto com os amigos (como o Michel, o Luis Carlos, o Fabio Matheus, o Mineiro, o Toninho, o Wilson e o Tonico) que se preparavam para a estreia nos 42,195 km, o que fizeram com louvor em SP. Mesmo quem não ia correr tanto, esteve também presente em alguns dos treinos, como a turma da minha equipe, a 100 Juízo (Zebra, Edward, Natanael, Wagner, Cezinha, Tania, Brazilino, Seneval, João Carlos, Sílvio, Patrícia, Rafael, Paulo Gallo, Acacio, Bras) e outros amigos, como o Manoel, o Moacir, o Renny, o Narezzi, o Bruno, entre outros.
O planejamento também envolveu outros aspectos, que requereram igualmente alguma dedicação. Passagem e hospedagem reservadas com bastante antecedência (e conseguindo boas promoções por conta disso). Inscrição garantida já no primeiro dia. Informações coletadas junto aos organizadores e a quem já conhecia bem a prova, como por exemplo, o Luciano Sauer, companheiro de Twitter, a quem conheci pessoalmente no dia da prova e tive a oportunidade de agradecer por tão boas dicas. E com o Sylvio, que deu dicas muito importantes sobre treinamento em geral. A periodização na musculação, fazendo inicialmente treinamentos de força muscular e em circuito, depois o trabalho de resistência. Cuidados com a alimentação (inclusive suplementação proteica e vitamínica), com a hidratação, com o repouso (todo um planejamento, por exemplo, de dias de descanso e de treinos regenerativos, intercalados com os outros mais fortes). Até o aspecto psicológico, às vezes vital em provas mais longas, foi trabalhado, com, por exemplo, longas e intermináveis caminhadas sendo usadas para acostumar o corpo e a mente com atividades bastante prolongadas. Enfim, muitos detalhes importantes levados em consideração, como partes integrantes de um plano que tinha como intuito me levar a uma boa prova e a um resultado mais condizente com a minha realidade como corredor. Como tuitei na semana que antecedeu a prova, os meus tempos da maratona e das distâncias menores que ela não pareciam ser da mesma pessoa. Era essa discrepância que eu queria, finalmente, corrigir na pista.
Mas não levei totalmente a sério o que li e ouvi, de alguns até como incentivo, sobre essa Maratona de Porto Alegre. Não adotei (como jamais adotaria, aliás) a postura soberba de achar que por conta das vantagens que ela traz (horário da largada, grau de dificuldade teoricamente menor do percurso, condições climáticas típicas do local e época do ano, etc.), conseguiria um resultado absurdamente melhor do que os obtidos nas minhas três maratonas anteriores. Mantive a humildade e o respeito pela distância, que independente de qualquer coisa, é e continua sendo sempre considerável. Pretendia usar em PoA uma estratégia conservadora, a exemplo da usada no início do mês, em São Paulo, ao lado do estreante Toninho Corredor: começar na boa, sentindo como estavam o dia e o corpo e, se possível fosse, acelerando aos poucos, buscando a velocidade ideal para a prova. Como incentivo (e gratidão) aos amigos Guilherme e Ricardo Hoffmann, que tinham feito a minha escolta de luxo em 2009, também em Sampa, propus a reedição do paredão, que fez, coeso e bem, os 25 km entre a Ponte Estaiada e a Avenida Politécnica da USP.
A viagem, na manhã de sábado, transcorreu sem problemas. Deixamos, eu, Janete e Dudu o carro no estacionamento próximo ao aeroporto (diária bem mais em conta que a do próprio) e fomos de van até o terminal. O voo, com escala de 45 minutos em Curitiba, teve um pequeno atraso, mas foi divertido, principalmente por conta do passageiro novato, que curtiu bastante sua primeira viagem de avião. Nos receberam no Salgado Filho staffs uniformizados, mas que não estavam dando muita conta do serviço. A chegada de bastante gente, no nosso e em outros voos, estava confundindo a todos, organização e participantes. Informações distorcidas sobre o transporte fornecido pela prova para a retirada dos kits e alojamentos (para os que estivessem hospedados em hotéis da rede conveniada) vinham com dificuldade. Quando o microonibus chegou, entrou nele quem foi mais ligeiro, não necessariamente na ordem da lista de nomes. Vendo que ali imperava a lei da selva e que, se respeitasse, seria o único, tratei logo de arrumar três assentos para mim e minha trupe.
O corredor local JC Baldi, do blog Medalha, Sombra e Água Fresca (ótimo nome!) já tinha cantado a pedra com antecedência. E não deu outra: a troca do local da entrega de chip (de pulso, estranho e meio incômodo), camiseta (simples, mas eu gostei) e números (seguindo normas da IAAF, dois, de peito e de costas) para atrair os 4500 participantes para a loja de esportes patrocinadora foi um tiro no pé. Longe do aeroporto e também da prova em si, além de acanhada para receber tanta gente, a lojinha fez marketing inverso. Creio que poucos tenham usado a notinha de cinquenta na sacola como vale desconto para adquirir algum artigo nela. Em pé, com dezenas de corredores à frente na fila que, com mais de quinze minutos de espera, sequer tinha se movimentado, nem precisei pedir. A Janete foi lá e, Dudu a tiracolo, deu um jeitinho brasileiro pra adiantar o lado. Não estou dizendo que acho certo e muito menos me orgulhando de “furar a fila”. Mas quem esteve no ano passado disse que a retirada, em outro lugar bem mais apropriado, não durou mais do que cinco minutos. E o pior é que a “esperteza” nem adiantou. A espera acabou sendo a mesma, porque o cara da van que ia levar os corredores para o hotel até era gente fina e bem-intencionado, mas precisava de autorização de superiores para saber para onde ir. Resultado: ficamos quase uma hora esperando pelo transporte. Era o chamado DES-DES-DES: desgaste desagradável e desnecessário, ainda mais para quem tinha que encarar nada menos que 42195 metros de asfalto no dia seguinte. Saliento que a organização teve uma iniciativa pra lá de louvável em oferecer como cortesia aos participantes de outras cidades esse serviço de transporte. Mas faltou comunicação e a coisa não funcionou muito bem na prática.
Essa correria toda na chegada à cidade acabou me obrigando a abrir mão do segundo compromisso previsto no cronograma: o almoço organizado pela grande corredora e blogueira Stéphanie Perrone. Já meio cansado, pedi desculpas ao Hoffmann, que encontrei na fila do kit e fui primeiro me instalar com a família. Tínhamos, junto com ele e o Guilherme, escolhido um bom hotel (Master Grande Hotel), bem localizado e com muito boas acomodações. Mas não era o mais próximo ao local da largada. Quem ficou no Perimetral, na Av. Loureiro da Silva, garantiu chegar mais rápido e sem sobe e desce até a concentração. Deu vontade de passear, fazer um city tour, conhecer pelo menos os pontos turísticos mais próximos, mas me limitei a ir até o supermercado buscar uns víveres; e depois descer até o saguão para dar umas navegadas, bater um papo e tomar um café com o camarada estreante, já de volta do almoço. Combinamos de nos encontrar para o jantar de massas da organização, com convites a R$ 20, mas recebemos a dica do funcionário do hotel para irmos até um restaurante mais próximo. No Rio, a dica tinha sido matadora, fui e aprovei 110%. Dessa vez, barca furada. O dito cujo ainda não tinha nem aberto e nem rodízio de massas era. Nessa, mudamos a rota e fomos andando até o local da largada, tentando localizar o tal Galpão Crioulo, onde o jantar estava sendo realizado. Com ruas escuras e meio sinistras, acabamos parando mesmo numa pizzaria, onde encaramos uma boa pizza a metro com três sabores diferentes. Não foi uma orgia gastronômica pré-prova, típica de outras viagens que fiz. Mas deu pro gasto para o carboloading.
De volta ao hotel, tratei de adiantar os preparativos para o dia seguinte. Separei tudo o que ia usar (os bolsos ficaram até pesados com tanto gel, sal e envelopes de Suum), afixei os dois números na gloriosa farda azul da 100 Juízo, deixei separados bermuda, tênis e meias. Só não dormi com o chip no pulso, embora imagine que alguns outros corredores o tenham feito, hehehe... O sono, ao contrário do que imaginei que podia ser, bateu logo e pesado. Antes mesmo de acabar a paixão, digo, a Passione, já estava serrando lenha. Só tomei um susto quando acordei de repente, achando que estava perdendo a hora... E ainda eram onze e meia da noite! Sem pânico, contei uns carneirinhos e voltei a capotar, indo direto até quase às 4h. Seis horas e pouco de sono já foram quantidade de duas noites, não de uma só, antes de outras provas importantes. Ficou de ótimo tamanho. Desci para o café da manhã antes do horário combinado, achando que seria o primeiro do trio. Que nada... Fui o último. Hoffmann & Maio já estavam, um mais, outro menos, garantindo os últimos carboidratos antes da batalha. A lancheria, no termo local, estava abarrotada e o idioma oficial era o castelhano. Uma verdadeira delegação paraguaia tinha invadido o nosso hotel. Praticamente um curso de espanhol com imersão. Mais uns dois dias de convivência e eu esqueceria a língua nativa... Tinha muita coisa boa à disposição, mas eu peguei leve. As lembranças de mousses de chocolate e outras extravagâncias afins feitas na manhã de corridas d’antanho falaram mais alto e me deixaram na base do pãozinho com peito de peru e queijo branco mesmo. Subi, fiz as últimas etapas do ritual (tentando não deixar para fazê-lo nem no químico antes e muito menos durante a prova), me despedi de esposa e filho e, na companhia da dupla de amigos e um monte de gringos, peguei de novo a van, do mesmo motorista da véspera, rumo à largada. Imaginando que teria que ir andando e que seria apresentado pessoalmente ao famoso minuano, fui bem agasalhado. Passei foi calor. A temperatura estava por volta dos 18 graus, bastante agradável, melhor até que a das últimas manhãs de provas valeparaibanas e paulistanas.
Com as ruas ao redor quase todas interditadas, o caminho acabou sendo curto, mas demorado. Desembarcamos com o dia ainda por amanhecer e o espaço já praticamente todo invadido por milhares de corujas, digo, corredores. A maior parte deles, claro, participando dos eventos paralelos à maratona, prova principal: a chamada rústica (corrida de 10 km com essa denominação, apesar de urbana e totalmente asfaltada) e o revezamento, no qual duplas, quartetos ou até octetos podiam dividir a distância total. Chamava a atenção a estrutura montada, com espaço para as tendas das equipes e assessorias e dos patrocinadores. Numa delas, a de isotônico, já recebemos uma garrafa inteira para consumo. E olha que eu já tinha levado outra, que bebia com alguma dificuldade, ainda sem qualquer sede. Tinha mesa de frutas, poltronas para descanso, enfim, a maior mordomia. Encontramos por lá o Rodrigo Tandaya, que iria fazer 21 km. E também o maníaco por maratonas Ésio Cursino, partindo para sua sétima prova da distância apenas em 2010. Já com os agasalhos na mochila e acomodados no guarda-volumes, cumprimentamos a caminho da largada o Hideaki, o Paulo Picanha, o Jota Júnior, o Lucélio (esses dois, os outros representantes joseenses na prova), o Ivo Cantor e a Marly; e o Luciano Sauer, já citado acima. Pena que não deu pra encontrar, como sempre, todo mundo. Seria bacana conversar, mesmo que rapidamente, com o Joel, com o Super Cesinha (acabaria trombando com esses dois, mas já no final da minha participação), com o sortudo do Colucci, com o Marco Boss, com o Jomar e outros amigos que ainda não tinham saído do plano virtual, mas que foram muito bons companheiros de preparação via Twitter e outros meios similares.
Com o dia já claro, mas ainda bastante nebuloso, finalmente saímos, embalados por música e pela transmissão da prova ao vivo por uma rádio local. O atraso no meu relógio foi de apenas um minuto, mais pelo gap entre tempo bruto e líquido do que por demora em si. Apesar do número considerável de participantes, foi tudo bastante tranquilo, sem atropelamentos e nem esbarrões, comuns em maratonas e outras provas em capitais, principalmente a maior delas. Com meus parceiros de ritmo, logo achei meu lugar na avenida. A velocidade era econômica, como sempre vai ser em todas as provas desse tipo para mim. Mas era também adequada para o início da contenda, com tanto chão pela frente. A primeira placa que apareceu não foi a de número 1 (que chegaria depois, com altos 6’22’’), mas a 20. E isso me fez cair a ficha de que tinha dado um belo vacilo. O percurso que eu tinha baixado na internet e estudado no Google Earth era outro, provavelmente o anterior, usado até 2008. Mas isso era o de menos. Conhecer e até mesmo decorar o percurso, como eu já tinha feito em outras provas, nunca foi garantia de coisa nenhuma. Previsto para ser 97% plano e bastante tranquilo, imaginei que as mudanças não fariam assim tanta diferença, até mesmo porque não tinha chegado a ser nenhum curso intensivo, só mesmo um ou outro sobrevoo com os recursos do software. Chegou até a ser um alívio, porque o trecho de mão dupla original, na tal Av. Ipiranga, parecia ser longo demais (quase 14 km) e meio desgastante, psicologicamente falando.
A beleza arquitetônica da capital gaúcha já tinha me chamado a atenção em fotos, antes mesmo de minha chegada à cidade. E se revelava ainda maior, nessa passagem em ritmo lento do nosso começo de prova. Usina do Gasômetro, Mercado Municipal, prédios em geral, para onde quer que se olhasse, tinha algo bonito pra ver. Até na pista, D. Janete que me perdoe. Cada guria bonita, que dava vontade de sair acelerando, só pra poder ver (e só ver!) de mais perto, hehehe... Lembrei do pedido de um amigo, que gostaria de estar conosco nessa prova, mas dessa vez apenas pegava carona em pensamento e ofereci a ele, que sabe do que estou falando, tantas belas paisagens.
Tudo parecia sob controle, a respiração, a passada e até o bom humor, dando lugar ao excesso de concentração e seriedade de outras provas longas, enfrentadas sozinho. As frases eram curtas, principalmente as do neobotafoguense Guilherme, mas o trio permanecia sempre próximo, um empurrando o outro. Talvez até demais. O ritmo já subiu para 5’52’’ no km 2, velocidade de cruzeiro meio precoce. A dissonância das placas 3 e 4, já em retorno e passando perto dos galpões à margem do Guaíba, no entanto, fez ver que não valia muito a pena perder tempo com elas. Uma passou com 6’59’’, a outra com 5’ cravados. A média, bem mais importante que a instantânea, era bem próxima dos 6’/km, bastante adequada àquela altura. E que se estabilizaria dali em diante, por um bom tempo. A marca dos 5 km de prova, na Av. Mauá, passou com tempo pouco acima dos 30 minutos.
A Janete e o Dudu, sabiamente, tinham ficado no hotel, deixando para ir até a concentração mais tarde, de café tomado e com o dia já um pouquinho mais quente. Assim, nessa nova passagem pelo pórtico, eu sabia que ainda não os encontraria. A presença de público era relativamente grande nesse ponto, contrastando bastante com o isolamento do restante do trajeto; e o apoio da galera a quem passava foi bacana. Ver a palavra CHEGADA com menos de 7 km rodados era meio estranho e eu segui adiante sem pensar em quando a veria de novo, dessa vez por mérito. A prova pegou a Av. Perimetral e fugiu do agito, começando a passar por lugares bem movimentados, mas alheios ao evento. O buzinaço de quem, nos carros, estava incomodado com a presença de tanta gente atrapalhando o trânsito, começou cedo. E confesso que me deixou um pouco chateado. Alguns motoristas xingavam, outros corredores retribuíam as gentilezas. Eu e o Hoffmann seguíamos adiante, já sem a presença do Guilherme que, mais uma vez sobrando, não tínhamos como segurar. A partir do oitavo quilômetro, a coisa começou a complicar um bocadinho. A inclinação era leve, mas existia. Já com dois postos de água passados e o primeiro dos seis sachês de gel abertos, tive que exigir um pouco mais da musculatura para não deixar o ritmo cair. Ele até melhorou no trecho inicial, com duas passagens seguidas abaixo dos 6’, mas no trecho do primeiro viaduto, caiu novamente. Do outro lado da pista, Ivo e Guilherme mandaram uma força e foram devidamente retribuídos. A chegada aos dez quilômetros da prova mostrou que a coisa seguia ainda dentro do planejado, com pouco mais de 30 segundos acima de uma hora. Mas a sensação agradável da prova tranquila no começo tinha ficado para trás. O símbolo disso foi a devolução da uma ultrapassagem que tínhamos feito um pouco antes. Quem ficou para trás no plano, deu o “X” com facilidade na inclinação. Não chegou a acender a luz amarela, mas deu a entender que o viés era de baixa. A cena se repetiria adiante, no outro viaduto, o da Silva Só. Alcançamos o Paulo Picanha no ponto culminante da corrida, lá pelo km 12. Mas ele usaria a descida para dar o troco e voltar a abrir distância. A troca de posições, por si só, não quis dizer absolutamente nada, acontece o tempo todo, tanto mais quanto maior seja o número de participantes de qualquer corrida. Mas marcou o início da fase problemática. Junto com o sol, que apareceu, não chegou a esquentar de vez. Mas ajudou também a bagunçar o coreto.
A primeira vez em que a virilha doeu foi... Vejamos... Quando tomei uma carreira de um cachorro em 2006 ou 2007, fazendo um treino nas ferraduras auxiliares do Jardim das Indústrias, bem antes da Via Oeste ser aberta. Quando eu levei o tombo jogando bola com a molecada nas férias de 2008 na Bahia, a lesão se agravou e me deixou um mês e meio parado. Impedindo inclusive a minha participação na Maratona de Porto Alegre daquele ano, meu projeto original. Muita fisioterapia e remedinhos depois, ela melhorou, mas nunca ficou 100%. Culpa minha? Sim, claro. Mas também da tranqueira do meu plano de saúde, cujo um dos médicos disse que “ressonância magnética não se pede por qualquer coisa”. Ela quase nunca volta a doer, mas, vez por outra, ataca. Às vezes, até em momentos cruciais. Mas nunca em um como esse. Abandonar os 10 km da corrida do Sindicato dos Metalúrgicos em Taubaté não foi nada. Senti-la durante a maratona, no entanto, era o meu pior pesadelo. Quando ela fisgou a primeira vez, com 13 km corridos, eu já pensei de imediato um putz, não vou terminar essa prova. A primeira coisa a fazer foi “dispensar” o Hoffmann. Diminuí propositalmente o ritmo, um pouco de medo de voltar a doer, mas bem mais para avisar o amigo de que a minha presença ao lado dele, a partir dali, seria perniciosa. No trecho entre as avenidas Princesa Isabel e da Azenha começaria o meu dilema. Desistir ou não? Continuar seria contusão certa? Não pagar pra ver seria fraqueza? Dúvidas iam e vinham na minha cabeça. No km 15 o ritmo já tinha caído para 6’23’’, com parcial de 1h31min. No 16, ela voltou a dar sinal de vida e, pior, com o intestino também incomodando e nenhum banheiro químico, posto de gasolina, boteco ou qualquer outro salva-vidas do tipo à vista.
Desanimei. Comecei a andar, ameacei zerar o relógio, mas pensei bem e resolvi me dar uma segunda chance. O prejuízo existiu, mas não foi tão grande. Nessa primeira refugada, perdi algo em torno de um minuto ou pouco mais. A placa dezesseis passou com altos 7’32’’, mas sem ainda botar a prova totalmente a perder. Se a coisa desse uma melhorada, ainda dava pra retomar o ritmo e seguir dali. Assim foi no km 17, lá pela Av. Praia de Belas, com o ritmo voltando a melhorar, tímida, mas visivelmente, com 6’07’’ de pace. Só que, logo em seguida, tornou a cair, ficando em 6’23’’ no 18 e, pior, 6’31’’ no 19. O som, cada vez mais audível, indicava a volta ao trecho da largada. E onde haveria banheiros, para resolver pelo menos um dos problemas que vinham me empacando. Tentei abrir o envelope do Suum para ver se dava uma reanimada e, de tão atrapalhado, não consegui nem rasgar. Tentei com a mão, tentei com os dentes. E nada. Só mesmo parando para finalmente conseguir. Nisso, tomei ultrapassagem de gente que vinha quase andando, como uma senhora bem idosa, passinho curto, mas constante. Não que isso seja algum tipo de humilhação ou vergonha, pelo contrário. É motivacional, apenas e tão somente. Mas não foi assim naquele momento. Cheguei à placa 20 com 8’43’’ de pace e 2h06min de tempo parcial. As pontadas na virilha até tinham diminuído, mas não mais que a vontade de correr. Segui adiante, reencontrando o Hoffmann já voltando, circundando a área da concentração por mais algum tempo, chegando até a placa 22. Mas parei por ali. Apertei o botão para zerar o tempo e fui procurar um banheiro químico. Papel? Só mesmo o do número de peito de um outro corredor, que estivera ali antes. Serviu pra quebrar o galho. Sei lá quando tempo fiquei ali, deu a impressão de que uns quinze ou vinte minutos. Procurei a Janete e o Dudu e não os vi. Tivesse encontrado, pediria desculpas ao meu filho, com quem combinara uma chegada junto comigo, como tinha sido na General Salgado de 2008, voltando da contusão que a queda na quadra de futsal causara. E deixaria a festa para uma outra ocasião. Mas, teimoso, e momentaneamente sem dores, resolvi partir para uma nova tentativa. A exemplo do que acontecera em outra prova também “estragada” por motivos semelhantes, a Frei Galvão 2009. Sem compromisso, só mesmo para completar a prova, cortei caminho na ocasião e dei uma segunda volta livre no trajeto. Cheguei a rodar um pedaço com o cronômetro parado, sem a parcial do km 23. Ali, o acionei de novo, só para saber a quanto estaria rodando, mas nem me dei ao trabalho de apertar o botão lap nas placas 24, 25 e 26, pela meio isolada Av. Edvaldo Pereira Paiva, passando ao lado do Estádio Beira Rio, reencontrando o Jotinha, já acabando a corrida, mas reclamando de cãibras que atrapalharam muito os planos dele.
Chegou então mais um posto de isotônico. Acredito que o terceiro da prova, esse com um estranho, mas saboroso líquido azul. Peguei um copo e parei pra beber. Fiz que ia seguir adiante, mas acabei voltando para pegar mais. A dor, embora leve, tinha reaparecido e trouxe uma súbita e inevitável epifania. O que, afinal, eu estava procurando ali? A corrida já tinha acabado faz tempo para mim. Insistir pra quê? Só para terminar a prova, com um tempo bruto alto, quem sabe pior até que o da Maratona das Praias? Para arrumar uma contusão mais séria, me botando no gancho sabe-se lá por quanto tempo? Para chegar todo estropiado (e aplaudido), que nem a moça suíça de 1984? Não, gente, não valia a pena. Doeu o coração, deu uma p* vontade de chorar. Mas resolvi desistir de vez ali. Andei até a próxima placa, que era a do km 40. E dali, engatei um trote, que, ao lado de gente que estava correndo para fechar a prova na casa de 3h30min, acabou virando a melhor parte da corrida. Bisaria 5’44’’ nesses dois quilômetros finais. Chegou até a dar um falso entusiasmo, que se transformou em verdadeiro, quando vi meu garoto esticar os braços para mim, me pedindo para levá-lo por pouco mais de cem metros. Não trouxe orgulho e nem a inexplicável e maravilhosa sensação de terminar verdadeiramente uma maratona. Mas me fez perder a vergonha de receber aquela linda medalha-gigante que entregaram aos concluintes, junto com o kit, que tinha mais isotônico, frutas, barra de cereal e um gostoso bolo de laranja, ali mesmo devorado. Como não cronometrei todo o tempo e não marquei todos os paces, o tempo final e, por consequência, o ritmo médio que publiquei no topo da página são meras estimativas.
A Janete veio nos reencontrar e, meio surpresa, mas sem noção exata do tempo, chegou a achar que eu havia mesmo terminado. Não, não havia. A frustração era grande, um vazio no peito que fica até difícil de descrever. De quem se preparou longamente para algo que, totalmente fora do próprio controle, acabou não acontecendo. Atenuada, claro, pela emoção e alegria desses metros finais com meu filho. Mas que doeu. Doeu fundo. Fez valorizar ainda mais as outras vezes, em que não corri bem, mas consegui pelo menos terminar. E está trazendo reflexão sobre a validade de continuar insistindo em algo para o qual eu, visivelmente, não tenho qualquer aptidão. Qualquer coisa que eu escreva agora, ainda meio de cabeça quente, não vai ser lá muito racional; e eu peço desculpas por isso. Mas, a despeito dos bola pra frente, outras virão que eu disse e escrevi a todos os com quem já me comuniquei desde então (meu muito obrigado aos que ligaram e mandaram mensagens), pode ser que essa tenha sido minha última maratona. Não última corrida, é claro: amo e vou continuar amando sempre correr. Mas dessa envergadura, talvez sim. Gosto de metas, não de obsessões.
Contudo, é importante lembrar, não fui a Porto Alegre atrás de tristeza, mas de alegria. E a encontrei, se não pelo motivo principal, por muitos outros. Satisfação em tomar conhecimento da bela estreia que fez o Ricardo Hoffmann, correndo com sabedoria e conquistando um ótimo resultado. Em ver que o Guilherme, mesmo tendo problemas, conseguiu concluir mais uma; e já está pensando na próxima, no RJ. Em encontrar novamente o Lucélio (com a Sueli), em belo e animado almoço na churrascaria gaúcha; e saber que ele ficou a poucos minutos de sua meta de sub-4h. Em levar o Dudu para um passeio no Parque Redenção e, mesmo andando feito mula manca, brincar com ele na roda gigante, na mini montanha-russa, no bate-bate, naquelas xícaras giratórias que deixam qualquer um zonzo... Em saber, ainda lá, que a 100 Juízo fez bonito na prova do SESI (um parabéns especial ao Wagner, subindo pela primeira vez ao pódio!), que passou na porta da minha casa. Em finalmente, no dia seguinte, dar um passeio pelas ruas da cidade, conhecer parte do centro, o interior do mercado, fazer umas comprinhas, tirar boas fotos, bancar o turista, enfim. Em tomar um café da manhã animal na manhã de segunda, que serviu até como almoço. Só fui sentir fome no aeroporto, já no final da tarde. O voo de volta, dessa vez direto, assustou todo mundo, menos o Dudu, que achou que a turbulência fazia parte do pacote. Não foi um final de semana totalmente feliz. Mas trouxe, sem dúvida nenhuma, momentos felizes também. Valeu.
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 5 (internet, cartão)
- Retirada do kit pré-prova: 2 (a mudança para agradar o patrocinador simplesmente não deu certo)
- Acesso: 3 (ficou meio complicado de chegar até para quem conhecia bem)
- Largada: 5 (pontual e sem confusões)
- Hidratação: 5 (perfeita, com água gelada na maioria dos postos e vários postos de isotônico)
- Percurso: 5 (tranquilo e agradável na maior parte, com trecho meio complicado na altura dos 8 aos 12 km)
- Sinalização: 4,5 (placas bem visíveis e diferenciadas da maratona e da rústica; uma delas mal colocada, mas o resto aparentemente ok)
- Segurança/Isolamento do percurso: 4 (bem feito, mas gerando estresse de parte a parte)
- Participação do público: 3,5 (largada/chegada, pouca participação no percurso)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (bem tranquila)
- Qualidade do kit pós-prova: 4,5 (muito bom, mas pelo custo, podia vir mais coisa)
- Camiseta: 4,5 (simples, mas legal)
- Medalha: 5 (enorme e muito bonita, uma das melhores que já ganhei)
- Divulgação dos resultados: 4 (vi no dia seguinte, não sei se saiu antes; com um só tempo, não sei se líquido ou bruto)
Média: 4,33