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A Visão do Corredor - 4ª Corrida ADC Embraer


Uma das coisas que tornam a corrida interessante, sobretudo para o esportista amador, é a possibilidade de arriscar. Como você não vive disso, não deve resultados a patrocinadores e nem a adeptos, pouco tem a perder. Pode dar-se o direito de tentar fazer algo diferente, que sabe não ser fácil alcançar. Pode dar certo. Como pode não também. Não colocando a saúde nem a integridade física em risco, na minha opinião, é válido.

E a tal aposta de hoje surgiu independente da minha vontade. Até o dia anterior, eu ainda estava em dúvida quanto a minha própria participação na prova. O treino de sexta-feira à noite, seguinte a mais uma tentativa de voltar à musculação, foi bem pouco produtivo. Era pra ser um longuinho de 17 Km e ficou abreviado a pouco mais de 15. A sensação de abafamento, provocada pelo calor e baixa umidade, mesmo após as 18h, era absurda. Se o clima continuasse como estava, eu abriria mão da prova, sem qualquer dor na consciência. Mudou. O sábado amanheceu nublado, perfeito para correr. Mas restaram dores musculares que, mantidas, também tornariam inviável uma boa corrida no domingo. Fiquei na horizontal do dia inteiro, no máximo dando um tratinho no novo site da Equipe 100 Juízo. Tudo pra chegar em condições de correr nessa minha segunda prova da Embraer.

Acordei animado no domingo. As dores tinham diminuído bastante, a sensação de "travamento" muscular, idem. Ao chegar bem cedo ao local da prova, mas já encontrando por lá bastante gente ainda mais madrugadora, acreditei que tinha tudo para atingir minha meta do dia, a de repetir o bom resultado obtido no mesmo evento em 2008. Todas as condições para isso: treino durante a semana para reconhecimento do percurso, temperatura amena, descanso a contento, boa alimentação (pelo menos nos meus critérios próprios). E um estímulo a mais: a "assessoria" de luxo de um grande companheiro de equipe, o João Carlos. Ainda se recuperando de uma lesão, ele se propôs a fazer um ritmo bem mais lento que o seu usual para me acompanhar. Existia o risco de quebradeira e eu poderia com isso botar a minha prova a perder. Mas, se conseguisse usá-lo como coelho de primeira categoria, poderia não só repetir, mas quem sabe até superar com folga o já muito bom tempo (também no meu próprio conceito) anterior. Uma aposta, enfim. Deu friozinho na barriga. Mas não resisti e topei.

Bacana ver mais uma prova de bom gabarito se consolidando na cidade e região. Na quarta edição, segunda aberta ao "público" (não associados), houve crescimento no número de participantes, inscrições encerradas com bastante antecedência, deixando muita gente boa de fora, inclusive. A divulgação mais uma vez antecipada da lista de inscritos, inclusive os caminhantes, tornou mais tranquila a distribuição do kit pré-prova. Muitos amigos presentes, como de costume. Equipe 100 Juízo praticamente completa e vários outros camaradas, que falam de mim, mas não perdem uma também, hehehe... Satisfação em reencontrar a todos! Em especial, destaco duas presenças ilustres: a do Dr. Fábio Baptista, médico, amigo e grande incentivador do (re)início da minha prática esportiva. E a volta do Michel, ainda não correndo, mas visivelmente feliz por estar ali, entre seus amigos.

Com um mínimo aquecimento (trotinho para ir deixar a mochila no carro) e um pequeno atraso (de apenas dois minutos), largamos rumo à rotatória do INPE. Eu tinha uma missão: colar no João Carlos e não deixá-lo fugir. Coisa bem complicada, mesmo com ele correndo à meia carga. E mais ainda no meio da muvuca. Mesmo sem um número exagerado de corredores, o espaço em meia pista ficou um pouco estreito, obrigando a muitos desvios e ziguezagues para escapar. À frente, o guia sinalizava e dava dicas para fugir do tumulto. Chegamos até a correr um pouco na faixa da direita, coisa da qual o marronzinho não gostou nada. Correndo bem mais rápido que planejava, me preocupei em não virar escravo do relógio. Qualquer número que aparecesse na primeira placa poderia ter efeito negativo. Ou por ser baixo demais e, no susto, servir de freio natural. Ou por ser alto demais e decepcionar. Ainda bem que nem vi a placa e passei batido. Por hora, parecia possível acompanhar e isso dava até uma certa empolgação. Ainda assim, velhos parceiros de outras provas apareciam à frente. Como o Toninho, por exemplo. O João chamou pra ir buscar. E eu pensei mesmo em ir. Mas aí apareceu o primeiro problema: um cadarço desamarrado e, como certamente diria a Lei de Murphy aplicada ao esporte, a do pé com chip. Tive que parar. Falei pro João seguir, mas ele ficou. Dez segundos perdidos no pit, retomamos a "caça aos adversários", que haviam ganho terreno com a pausa forçada. Pela outra pista, já voltavam monstros como Jota Júnior, Manoel, Natanael, Acacio, Mineiro, Wilson e o capitão Zebra, entre outros superatletas.

O ritmo estava tão insano que não tardou a aparecer a segunda placa e o retorno, desta vez, ao contrário do treino de quarta, contornado no local correto. Aí não resisti e olhei para o cronômetro. Ele marcava, mesmo com o tempo perdido no laço, inacreditáveis 8´51´´. Não era à toa que o coração estava na boca, junto com os pulmões. Ali atrás eu já tinha pedido pra sair, não sei se o João e o resto da galera tinham ouvido. Quando o sentido do vetor mudou e começou a apontar para cima, cheguei à conclusão de que a aposta tinha dado errado. Parei, dei uma andada, recuperei o fôlego e tentei novamente. O João Carlos continuava apostando em mim e, generoso e solidário, simplesmente se negava a seguir sozinho. Tentei achar um ritmo mais fraco que o anterior, mas que permitisse ainda chegar com motivos pra comemorar. Estava difícil. Deu uma vontade imensa de "chutar o balde" e, como tinha sido no domingo passado, jogar tudo pro alto. Sem a desculpa da fisgada, dessa vez.

E bem que eu tentei desistir. Parei outras duas ou três vezes, sempre empatando também o amigo João Carlos. Passou quem eu tinha deixado pra trás na arrancada inicial, como o Bruno e o Rodrigo, por exemplo, e mandou um apoio. Eu retomava a corrida, cada vez mais devagar, mas a respiração não ficava confortável novamente de maneira alguma. O terceiro quilômetro custou muito mais a chegar que os dois anteriores, claro, e já marcou pace acima de 6´. Corrida totalmente comprometida, mesmo a busca da meta inicial, de baixar de 28´30´´. De cortar o coração ver o grande resultado, que chegou a parecer tão próximo, escorrendo por entre os dedos. Mas não dava pé. O Edward apareceu e eu disse para o João acompanhá-lo, já que ele certamente terminaria a prova, ao contrário de mim. Eles até foram, mas não abriram distância, já que voltei a trotar. Quando o João, já no final da subida, achou que ia ter que voltar pra me buscar, eu gritei e avisei que estava logo ali. Recuperei a companhia.

E isso seria decisivo para pelo menos terminar a corrida, não ganhando mais um "X" na lista de provas. Passamos pela outra pista, ao lado do pórtico de largada e tivemos o apoio da Janete, do Dudu, da Samira, da Cecília e de outros que assistiam. Ali atrás, Tereza e Tetian, na caminhada, haviam feito o mesmo. Era hora de esquecer tempo e me focar em apenas concluir. Prêmio de consolação, "miss simpatia"? Sim, mas bastante valioso para quem, metros atrás, via a desistência como algo inevitável.

E finalmente chegou o último terço da prova, o único plano. Curioso como cada terço teve sua característica própria, como se fossem três corridas diferentes. Este terceiro, com a volta da motivação perdida no segundo, seria difícil, mas gratificante. Na entrada da rua do aeroporto, quem já vinha de volta era gente ligeira como a Irma e o Mayke. Acelerei o mais que pude no retão, sem medo de parar novamente. Viramos à esquerda e a placa cinco estava no lugar em que todos retornamos no treino noturno durante a semana. Só que o retorno não seria ali. Marquei estranhos 4´16´´ na passagem (não era pra tanto!), fiz o contorno-surpresa-adicional pra completar os seis mil metros e peguei o caminho de volta. Tentaria agora como último incentivo ficar abaixo do tempo do treino de quarta-feira.

Não havia gás para um sprint, nem longo, nem curto. A entrada no funil foi a passos curtos. Na passagem pelo pórtico, não consegui parar o relógio, só veria isso já dentro das dependências da ADC, atrás de um copo d´água e rumo à fila do kit. Calculei como tempo líquido cinco segundos abaixo do tempo bruto divulgado na classificação. Última missão cumprida, por 23 segundos e com alguns metros a mais. Não dava pra ficar feliz com um tempo quase dois minutos acima do meu resultado de 2008, mas fica o orgulho por ter tentado algo muito maior. Falhei, mas poderia estar comemorando agora um primeiro pace médio abaixo dos 4´30´´ min/Km, marca que tenho convicção de que um dia ainda vou alcançar. Só tenho a agradecer, e muito, ao grande corredor e amigo João Carlos, que não desistiu de mim por nem um único segundo. Valeu, camarada!

Recebemos, ao final da prova, um kit apenas razoável, mas um pouquinho melhor que o da edição anterior. Teve frutas (banana e maçã) e bebida à base de soja. Tanto camiseta quanto medalha foram ligeiramente inferiores, a primeira menos bonita pela cor (branca contra o laranjão tijolo de 2008), a segunda, também menos pintosa, devendo data, distância e modalidade. A crítica maior, no entanto, vai para a manutenção de algo que já havia sido, ao meu ver, um grave defeito da edição passada: a "segregação". Embora sempre seja louvável o incentivo à prática esportiva nas empresas, sobretudo nas de grande porte, que têm condições de ajudar e muito neste aspecto, transformar a corrida, que é uma só, em dois eventos distintos, um para associados da ADC e outro para não-sócios, é, para dizer o mínimo, discriminatório. Se todos ali corremos juntos (e pagamos), por que então divulgar duas listas? E por que premiar nas faixas apenas os associados, criando uma única e cruel categoria geral para os demais? Um evento bem organizado, que merece muitos elogios, mais uma vez, fica também negativamente marcado pelo corporativismo. Paciência...

Parabenizo o capitão Zebra pela segunda colocação em sua faixa etária e ao amigo Narezzi pelo terceiro na dele. E também ao Jota Júnior e à Irma pelo primeiro, ao Manoel pelo quarto, ao Rogério pelo sexto, ao Acacio pelo sétimo e ao Mineiro, pelo oitavo entre os não-sócios. Da mesma forma que a todos os que, independente de resultado ou pódio, estiveram em mais esta batalha. Muitas outras certamente virão. Até elas!

P.S.: se na VW Run sortearam um carro, por que será que hoje não teve sorteio de um avião entre os participantes, pelo menos entre os que têm brevê??? (hehehehe...)

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4 (internet, boleto)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila e com lista antecipada)
- Acesso: 5 (estacionamento bem próximo)
- Largada: 4 (atraso mínimo, um pouco tumultuada)
- Hidratação: 5 (perfeita antes, durante e depois)
- Percurso: 5 (revisto, ampliado e ainda muito bom)
- Sinalização: 5 (placas bem visíveis, com exceção da primeira; achei o Km 5 muito curto)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (funcionou bem)
- Participação do público: 4 (concentrado na largada/chegada, com direito a apoio na passagem)
- Chegada/Dispersão: 5 (tranquila)
- Entrega do kit pós-prova: 4,5 (sem problemas comigo, mas meus tios receberam kits diferentes, um com dois sucos, outro sem nenhum)
- Qualidade do kit pós-prova: 4 (melhorou um pouco em relação ao ano passado, mas ainda está devendo pelo valor da inscrição)
- Camiseta: 4,5 (boa qualidade, mas não gostei do branco)
- Medalha: 3,5 (sem data, sem distância, modelo único e não tão bonita como a de 2008)
- Divulgação dos resultados: 4,5 (rapidíssima, apenas tempo bruto)



Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/

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