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A Visão do Corredor - 33ª Prova Pedestre Cidade de Ilhabela


Comemorando os 204 anos da cidade insular de Ilhabela e marcando o meu retorno às provas de rua depois da encardida Maratona das Praias, aconteceu neste domingo esta prova de 6 Km, distância bem mais adequada para a ocasião que os sensacionais, mas dificílimos trinta e um do Desafio Ecológico de Pindamonhangaba. Pedindo desculpas ao amigo Maurício Cortez, organizador da prova grandona pela ausência, e confirmando desde já a minha presença na próxima edição, rumei com os amigos da Equipe 100 Juízo para mais essa empreitada.

E essa exigiu alguns detalhes logísticos especiais, a começar pelo horário da saída. Voltando a ter, depois de algum tempo, o apoio da Secretaria Municipal de Educação que nos cedeu o transporte, combinamos a concentração para as 5h30min da madrugada no QG. Por estar no caminho, tive o privilégio da retirada em casa e pude dormir alguns minutos a mais que os companheiros de equipe. Vencendo Tamoios e Rio-Santos pouco movimentadas, chegamos a São Sebastião e completamos o trajeto com um rápido passeio de balsa. A manhã, ao contrário do que dizia a previsão, tinha começado ensolarada. No litoral, tempo inicialmente fechado, mas bastou chegarmos à ilha para o sol voltar a brilhar com força. Lembrou, com mau agouro, o domingo anterior em uma cidade não muito longe dali. Ainda bem que com um sétimo da distância.

Apesar de chegarmos com bastante tempo, já havia muita gente na praça da rotatória, local da largada, pouco depois da saída da balsa. A distribuição do kit se resumia a duas carteiras escolares onde staffs entregavam apenas os números de peito (não haveria cronometragem por chip) aos inscritos. A surpresa pra lá de desagradável foi não ver o meu nome na lista. O site da TH5 Eventos, na qual as inscrições eram feitas, apresentou problemas no processo, até mostrando uma mensagem de confirmação, mas em nome de outro corredor (!). Ao ouvir de outras pessoas, dias antes da prova, que a falha também tinha ocorrido com eles, imaginei se tratar de algo de pouca importância, mas ainda assim preenchi o formulário de "fale conosco" do site (que também deu erro, retornando a mensagem) e também enviei um e-mail para a organização, solicitando a confirmação da minha inscrição. Não sendo atendido, tornei a preencher na internet o formulário de inscrição e, sem confirmar novamente, apenas imprimi a página com os meus dados pessoais para ter o que apresentar no dia. A pessoa que veio falar comigo disse em tom entre o professoral e o agressivo, ao ver o meu impresso, que eu não estava inscrito porque "faltou um clique". O problema acabou sendo resolvido com uma nova inscrição feita ali mesmo na hora, mas o episódio de total falta de bom senso estava consumado. Era, nada, nada, a minha 112ª inscrição em uma corrida e eu, se não sou um expert, também não sou nenhum analfabeto digital. Aborrecimento gratuito e desnecessário.

Mas, sem problema, ali eu estava para me divertir, depois de uma semana totalmente parado, recuperando músculos e neurônios desgastados de bastante esforço dias antes. Não ia deixar que nada e nem ninguém estragasse isso. A caravana 100 Juízo hoje contaria com a presença de Zebra, Edward, Natanael, Acacio, Mayke, Rafael e com a volta, depois de bastante tempo, do nosso caro amigo Bras. Do com juízo, mas não muito, Vander/Mineiro. E com o meu staff familiar, Janete, Dudu e meus tios, hoje, sem caminhada como parte do evento, nos papéis de fotógrafos e "nutricionistas" (N. do E.: piada do Zebra). E do nosso piloto oficial, o grande Luís. Galera animada, boa de papo e que torna qualquer espera por corrida bem menos penosa. Faltando pouco mais de dez minutos para o horário previsto, fui dar um trotinho rápido de aquecimento com o Bras e já sentimos o drama do piso. Para quem vinha de chão de areia, paralelepípedo era lucro. Mas não era assim um asfalto...

Houve atraso, pequeno, até por conta de uma reorganização de última hora (a galera do gargarejo tinha andado uns quinze metros além da faixa de largada e teve que recuar), mas logo saímos pela avenida principal. Eu havia visto, ao chegar, nas mãos de um staff uma das placas brancas e vermelhas (a do Km 1), idênticas às do percurso de Bertioga e me tranquilizei. Mesmo gratuita, não-chipada, sem camiseta (e, saberia depois, sem outras coisas também), pelo menos sinalizada a prova deveria ser. Seria uma decepção a mais. Não consigo entender o porquê de levar placas e simplesmente não usar. Melhor deixar em casa.

Assim sendo, comecei em um ritmo que me pareceu adequado, nem forte demais e nem muito tranquilo, mas que não serei capaz de precisar de quanto. Tinha boas perspectivas, em um percurso (quase) totalmente plano e (quase) à beira-mar, onde costumava me dar bem, à minha maneira, em corridas passadas (em Caraguá e São Sebá). Desejei boa prova aos colegas de equipe Edward e Bras e, ainda no começo, os alcancei e segui em frente. Não escolheria hoje um coelho para ditar o ritmo, procuraria mantê-lo, por conta própria, constante e pouca coisa aquém de confortável. Veio uma subida curta, na passagem pela ponte. A descida correspondente, logo à frente, e em seguida o percurso novamente estabilizou no plano. O sol brincava de esconder, mas a temperatura, mesmo não muito alta, causava desconforto pela combinação de umidade e abafamento. Antes mesmo de chegar ao que imaginei ser mais ou menos o primeiro quilômetro, já estava suando em bicas e ameaçando hiperventilar. Teria que diminuir um pouquinho para evitar maiores problemas adiante.

Já tinha descoberto que a tal placa do primeiro quilômetro não seria mesmo usada. E o que me consolou foi o prematuro primeiro posto de hidratação. Água em temperatura ambiente, longe de estar gelada, mas que serviu para um bom refresco. Avistei logo ali o Bruno Narezzi e apertei o passo um pouco para tentar chegar perto dele. Cumprimentei e também passei. Até então, bem mais ganhava que perdia posições. O único medo era não resistir ao calor. E o medo parecia assustadoramente real.

Sem ter noção do ritmo, achava estar mantendo um mais ou menos legal, mas a sensação de não ter como aferir isso causava certo incômodo. E seguir pela avenida principal da cidade sem o trânsito ter sido fechado era missão complicada. Houve boa vontade, sobretudo demonstrada nas duas faixas colocadas no percurso com os dizeres "Atenção motorista: corredores na pista". Mas na prática isso de pouco serviu. Comecei correndo pela direita, depois, junto com a massa, fui para o lado esquerdo. A pista era estreita e praticamente só nos sobrava a calçada, irregular, com rampas, árvores e plantas (o Acacio sairia com arranhões) e alguns buracos. Quando fui descer para a rua, para desviar de um desses obstáculos, tomei buzinada de um motorista nervosinho. Se é estressado assim no domingo, imagina durante a semana...

Achei que os seis dias de descanso haviam me recuperado totalmente do esforço arenoso, mas, pelo menos durante a prova de hoje, cheguei à conclusão de que estava enganado. De repente bateu uma sensação desagradável, de pernas pesadas junto com desconforto estomacal. E isso me fez diminuir um pouco, até andar inclusive. O Bruno passou de volta, incentivou e eu logo tornei a correr, diminuindo um pouco o ritmo, mas mantendo passadas firmes. Recuperava as posições perdidas, imaginava que conseguiria manter, mas aí o desconforto voltava. Sabendo que não adiantava brigar com o organismo, peguei mais um copinho d´água e optei por deixar o bom desempenho para outro dia, me contentando apenas em chegar. Olhei para o cronômetro e vi a parcial de 21´30´´. A prova era curta, deveria faltar pouco mais de 1,5 Km. Só que o miolo, àquela altura, já estava fritinho, fritinho.

Aí parece que deu pane seca. Na segunda subida, um pouco mais forte, mas com uma descida igual em intensidade logo em seguida, eu tornei a andar, para perder definitivamente a posição para o Bruno. Chegamos a correr juntos durante um trecho e eu tentei acompanhá-lo até o final, mas ele estava bem mais estável hoje. Fez uma bela corrida e está de parabéns! Cheguei a desanimar um pouco com várias outras posições perdidas nesta parte da prova, mas tive também a agradável surpresa do apoio de todos que vinham lá de trás. Na falta de torcida (e de pernas), era o que empurrava à frente. Eu estava doido para enxergar um pórtico, mas ele não aparecia nunca...

O Natanael já vinha voltando, mas eu sugeri que ele fosse acompanhar o Edward e o Bras. Logo avistei o Zebra, também já com a missão cumprida; e a Tereza e o Dudu, brincando na areia. Só não via mesmo era a tal da linha de chegada. Quando ela finalmente apareceu, inspirado pelo capitão, mais uma vez fiz nos últimos metros o que não fiz na corrida quase inteira. Podia alongar o sprint e recuperar umas três posições na classificação geral, mas me dei por satisfeito com apenas uma. Sabia que o tempo era bem mais alto do que poderia ser, mas 5´15´´, ainda mais com as caminhadas curtas para atrapalhar, era um ritmo até que satisfatório.

Em prova gratuita, beneficente, sem fins lucrativos, a gente até alivia um pouco a pena (ou o teclado). Não dá para aplicar os mesmos critérios de avaliação usados para as corridas mais "profissas". Não saímos de mãos totalmente abanando porque havia uma mesa de frutas com bananas, tangerinas e fatias de melancia; além de mais água. Mas a forma self-service de distribuição é desastre anunciado. Boa parte das pessoas, e com corredores não é diferente, não sabe lidar com coisas gratuitas. Pelo simples fato de estar ali e ser "digrátis", tem gente que leva muito mais do que vai consumir, esquecendo de que ainda existem outros para chegar e que, por conta dessa ganância, vão ficar sem. Cheguei a tempo de garantir a minha cota, mas, quando os últimos corredores cruzavam a linha final, a mesa já parecia mais uma plantação devastada por uma nuvem de gafanhotos. Lamentável.

Já não tenho mais gaveta no armário pra tanta camiseta; e nem ganchinho na parede pra tanta medalha de participação. E, até por isso, nem dou mais tanta bola pra esses mimos como dava antes, quando era corredor neófito. Mas hoje eles resolveram fazer um negócio que eu achei bem chato. Troféu para os três primeiros e medalha para o quarto e quinto de cada categoria (apesar das faixas etárias meio exóticas), beleza, nada errado até aí. Mas ter camiseta como parte da premiação (além do staff também estar uniformizado) eu achei meio over. Se tivesse sido avisado antes, em um regulamento divulgado no site, não haveria problema, só seria chatinho. Mas deixar como surpresa para o dia da prova só piorou ainda mais as coisas. Assim como a dupla premiação: os primeiros colocados no geral masculino e feminino também foram premiados nas categorias. Ao justificar, antes da cerimônia, o locutor disse que quem pensava diferente "estava enganando a si mesmo". Quanta sutileza...

Mas os malucos do asfalto, mesmo ganhando pouco, se divertem muito. Ninguém tirou a nossa alegria e nem tampouco impediu a 100 Juízo de brilhar no pódio com o primeiro lugar do capitão Zebra e o quinto do Natanael em suas categorias. Ficamos contentes também com o amigo Gerson Narezzi, subindo pela segunda vez consecutiva em sua faixa etária. E com os desempenhos de todos os demais integrantes do grupo, que só não tiveram ainda mais destaque devido ao nível bastante alto dos participantes. Tinha até cheque-gigante na parada!

Teve piquenique? Teve! E dos bons: café, torta de presunto e sanduíche de salame no pão integral (e até onigiri, mas isso só para os iniciados). Se não nos alimentam, nos alimentamos sozinhos, hehehe... Teve gargalhada? Teve! Principalmente na volta da balsa. Tomamos um monte de água na cara, o mar estava bem mais agitado que na ida. E passamos um frio de bater queixo (só depois da prova, pra variar!). Na semana que vem tem mais: eu estarei em Taubaté, na Corrida do Trabalhador Solidário. E o resto da turma em Guará, no Circuito Unimed de Coração. Em lugares diferentes, mas juntos na torcida uns pelos outros. E com todos procurando fazer o seu melhor, sempre.

Dedico esse relato aos amigos Michel (se recuperando de cirurgia) e João Carlos (que não esteve conosco hoje por conta de uma contusão). Voltem logo, camaradas!

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 2 (internet, gratuita, mas apresentando erros que gerariam confusão)
- Retirada do kit pré-prova: 2 (acabaram resolvendo o problema, mas com grosseria gratuita)
- Acesso: 5 (estacionamento fácil e próximo)
- Largada: 4 (atraso pequeno, confusão causada pelos próprios corredores)
- Hidratação: 5 (postos suficientes e aparentemente bem distribuídos; água gelada só depois da prova)
- Percurso: 4 (bonito, mas com piso bem irregular)
- Sinalização: 1 (inexistente, mesmo estando na mão de quem deveria usar)
- Segurança/Isolamento do percurso: 3 (não vi maiores problemas, mas houve riscos)
- Participação do público: 2 (ausente)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 2 (só as frutas, em um sistema que fez com que não sobrasse para todos)
- Qualidade do kit pós-prova: 3 (fraco)
- Camiseta: 2 (sendo gratuita, não precisava; mas transformar em prêmio também não)
- Medalha: 4 (pra quem teve, era bonita)
- Divulgação dos resultados: - (na hora, rápida, mas ficou pouco tempo por lá; aguardando na internet)


Média: 3,14


Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/

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