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A Visão do Corredor - Maratona das Praias 2009


Quando algo dá errado, a primeira coisa que se costuma fazer é tentar descobrir o porquê. Ainda vou matutar muito a respeito dessa minha terceira maratona, mas a primeira conclusão a que chego é que eu estava sim preparado, e até relativamente bem, mas para uma corrida normal, com grau de dificuldade médio, se é que uma distância de 42 Km pode ser assim considerada. Essa, definitivamente, não seria. A maior preocupação, desde o começo, era o clima. Ter feito praticamente todos os treinos com temperatura amena, com honrosas exceções nos finais de semana sem provas dos últimos três meses; e chegar no dia D com um calor de arrebentar era o meu pior pesadelo. Ao sair de São José no sábado depois do almoço, tudo indicava que seria assim, inclusive os sites de previsão do tempo. Mas, durante a viagem, tudo mudou. O tempo na serra embaçou e chegamos a Bertioga sob garoa fina, inclusive. Não deu nem pra aproveitar a piscina do Chalés Schina, onde ficamos hospedados.

Devidamente acomodados, fomos fazer a retirada do kit pré-prova, o que transcorreu na maior tranquilidade, sem filas. Coloquei na urna meu cupom para concorrer ao pacote para a Maratona da Disney sabendo que, pé-frio toda vida, jamais ganharia. E talvez fosse até melhor assim, imagine arcar com as inevitáveis despesas pra levar a patota toda de casa também. A Janete aproveitou o tempo livre para uma pescaria improvisada, com material comprado na hora em uma loja ali perto. Não pegou peixe nenhum, mas deu pra tirar um lazer, enquanto eu descansava e ficava olhando lá longe, a outra ponta da praia, que conhecia bem dos 25 Km Interpraias de 2007, mas lembrando que dessa vez ela seria pouco mais de um quarto do caminho.

A numeração confusa dos logradouros da Avenida Anchieta quase nos faz desistir do jantar de massas oferecido pela organização no restaurante Borghese, gratuito para os participantes e com taxa de R$ 10 para acompanhantes. Mas valeu a pena procurar um pouco mais. Deu pra aproveitar bem o buffet com três tipos de massa (espaguete, talharim e penne) e três tipos de molho (ao sugo, bolonhesa e branco). Bebidas à parte. Deu vontade de acompanhar com um vinhozinho, mas acabei me contentando com suco de laranja mesmo.

Aí era hora de descansar. O que não seria fácil, com os vizinhos de chalé fazendo churrasco a dez metros da janela. Mas desabei assim mesmo. Sabe como é, terceira maratona. A expectativa era grande, mas a ansiedade não era mais a mesma do estreante. O sono foi meio entrecortado, mas, tendo ido deitar pouco depois das 22h, deu para descansar legal. Às 6h, fui acordado por uma luz entrando pela janela. O sol não iria faltar para a festa. Tomamos um café rápido e fomos direto para o local da largada, arrumando um providencial lugar próximo para estacionar.

Corrida longe de casa é estranho. Ver aquele monte de gente e não conhecer (quase) ninguém é algo cada vez mais atípico. A animação da galera faz falta. Arrumamos, eu e a Janete, um banquinho próximo a uma das entradas do Parque dos Tupiniquins e por ali ficamos, esperando a hora de partir para a batalha. Gente aquecendo, alongando e eu ali, nem parecendo que ia correr. Tranquilo, resignado, já refazendo os planos com a nova mudança brusca na temperatura.

Já próximo da hora prevista, vi de longe o Guilherme e fui cumprimentá-lo. Fui surpreendido com a notícia de que ele resolvera, incentivado por um amigo, correr os 42 Km também. Era seu plano inicial, resumido pela metade com a dificuldade encontrada nos treinos preparativos. Fiquei contente com a notícia, sempre acreditei que ele tinha tudo para conseguir. Mas mal deu tempo de falar sobre o assunto. Sem qualquer aviso prévio, soou a buzina e todo mundo já disparou pela areia. O pórtico estava montado ali, mas a notícia divulgada na semana anterior é que os primeiros 2,5 Km seriam no asfalto, a exemplo da minha primeira prova na cidade, dois anos antes. Foi só a conta de me despedir da Janete e, sem sequer uma foto da largada, peguei o meu caminho.

Todo mundo que ouviu falar que eu ia fazer uma maratona correndo na areia me chamou de doido pra baixo. Mas, pelo menos no primeiro trecho, o piso lembrava mais terra batida. Menos impacto que no asfalto, mas sem chegar ao ponto de afundar o pé. Menor desgaste nas articulações, mas, para compensar, maior demanda da musculatura. A série de exercícios praticada na academia durante os últimos meses era voltada para ganho de força muscular, ao invés de resistência, como nas minhas duas maratonas anteriores. Propositalmente. Outra característica da qual me lembrava bem da Interpraias era a presença dos inúmeros riachinhos desaguando no mar. Na ida, todo mundo os saltava, para evitar molhar os pés, encharcar tênis e meias e abrir a possibilidade de ganhar umas belas bolhas. Na volta, o que era evitado passava a ser desejado, para amainar o ferro em brasa que os pés se tornavam depois de vários quilômetros. E tudo estava ali de novo. O calor já era forte, mas a brisa lateral o amenizava um pouco. A sensação era muito gostosa, de estar começando mais um desafio para o qual tanto tinha me preparado.

O Guiherme, junto com seu amigo Luis, começou já em ritmo um pouco mais forte. Pensei a princípio em acompanhar, mas achei pouco recomendável. Preferi ficar mais para trás, na minha batida própria. A primeira placa, no mesmo modelo pequeno e meio escondido da minha outra corrida por ali, apareceu rapidamente. E pareceu colocada no lugar certo, passando com 6´10´´. Ritmo confortável, com tendência de aumentar um pouco mais pra frente. Conversando durante a semana com o Fabio Matheus sobre estratégia, disse que achava que a minha seria tentar fechar cada parcial de 10 Km na casa de uma hora, deixando a última e mais difícil para fazer com o gás que sobrasse. Restava saber se, com aquela lua cheia, isso seria mesmo viável. A segunda placa chegou ainda mais rápido, mas ainda dando impressão de que a marcação talvez estivesse mais ou menos precisa. 5´42´´ foi o tempo nela. Sem parecer ter aumentado muito o ritmo, entretanto. Era importante dosar a empolgação, evitar um começo forte demais, porque a jornada seria longa. Superestimar as próprias condições é caminho certo para o fracasso em qualquer corrida, em particular nas de maior duração.

Por enquanto tudo era só alegria. A quantidade de participantes era bem menor que nas minhas duas maratonas anteriores, mas, de qualquer maneira, a sensação de correr em grupo era bastante agradável. Os ponteiros já tinham desgarrado e sumiam no horizonte, mas a galera que saltava riachinhos junta era numerosa. O ritmo parecia constante, mas a placa três, que custou a chegar, mostrou que não dava pra confiar naqueles pequenos quadrados brancos jogados no chão (o locutor pediu desculpas antecipadas se alguma sumisse, eventualmente levada por algum rato de praia). O ritmo certamente não tinha despencado para 6´36´´, mas foi isso que disse o relógio. Dali pra frente, continuaria apertando o lap em todas as outras placas, mas desconfiado como todo bom mineiro (só por parte de mãe, mas não deixo de ser).

A estrutura de hidratação seria um dos bons predicados desta prova. A distribuição a cada três quilômetros, com dois postos adicionais de isotônico ajudaria bastante os corredores, ainda mais sob aquelas circunstâncias. O primeiro posto de água chegou e por ali peguei apenas um copo. Ainda sem sede, mas já com a pele começando a sofrer os efeitos do calor, tomei só um golinho e usei o resto como ducha. Ali na frente, escolhi ao acaso um corredor (um que usava uma bandana azul na cabeça) no meio da multidão e defini que seria meu alvo. Sem forçar e nem aumentar o ritmo, a ideia era ultrapassá-lo e, a partir disso, escolher outro para o mesmo fim. Mas a missão seria inglória. Ele pareceu apertar a passada e aumentou momentaneamente a distância. Abortei o plano, deixei pra lá. A motivação viria de outras formas. Mas isso não significava que não faria ultrapassagens. Embora recebesse algumas também, ia, mantendo a passada, deixando vários corredores para trás. Ter largado de surpresa tinha me deixado na rabeira da tropa, a sensação de recuperar as posições perdidas era bacana, um incentivo a mais para seguir em frente. O sol, só subindo e aumentando cada vez mais o calor. Não havia termômetros à vista, mas a sensação térmica já beirava a dos trinta graus.

As placas seguiam com tempos irregulares. 5´34´´ no Km 4 e 5´21´´ no 5. Não tinha a percepção de estar correndo nestes paces. Tudo parecia ter bem mais cara de 6´. E isso meio que se confirmou na chegada ao Km 7, com poucos segundos antes dos 42 minutos. Não tem jeito, por mais que eu me esforce, não consigo evitar as projeções. Essa veio quase automaticamente, e o número foi auspicioso: 4h12min. Não era o sonho de consumo dos sub-4 horas, mas era uma marca magnífica para o momento. Sonhar com ela não me custava. Os ponteiros da meia já voltavam, correndo forte à beça.

O próximo checkpoint importante seria a passagem pela marca dos 10K. E ela veio dentro do previsto, três segundinhos apenas para a hora completa. Em 2007 eu tinha chegado a essa placa com 54´, mas os tempos eram outros e a distância prevista, idem. A pouca presença de banhistas nos trechos da Enseada, SESC e Vista Linda tinha ficado para trás. Ali, no Canto do Indaiá, a muvuca era grande. Parte por gente curtindo a praia, outra por participantes da prova de travessia. (faltou você lá, Wlad!). Saímos todos desviando da multidão e de quem já voltava, como o Guilherme e o Hideaki; e chegamos ao final da praia, onde estava a tenda do posto de isotônico. Veio só um fundinho de copo, mas como caiu bem. Depois de chegarmos ao paredão do fim da praia, pegamos o caminho de volta, mas só um pequeno trecho dele. O staff orientava e a fita em amarelo e preto sinalizava o desvio à direita para deixar o Indaiá. Breve mudança de piso. Da areia para a terra. Aliás, terra só não, algum barro também. Caminho, todo irregular, para a Riviera de São Lourenço, segundo trecho da prova.

Eu já tinha notado isso um pouco ali atrás, mas só na chegada a essa segunda parte da corrida a coisa se manifestou mais claramente. Bateu um cansaço prematuro e preocupante. E, pior, sem motivo aparente. Não tinha sido por conta de exageros no começo, noite mal dormida e nem outra coisa assim, mais óbvia. Mesmo o calor parecia que tinha diminuído um pouco, com o sol se escondendo (brevemente) por detrás de algumas poucas nuvens. Mas o fato é que a primeira caminhada veio cedo, muito cedo. Da passagem pelo riozinho, ainda em maré baixa (na metade da canela, segundo o staff), até a barreira de pedras, que o "tkz", forista Runner Brasil, tinha avisado existir. Passamos por uma fenda no meio dela. E dali pra frente voltei a correr. Mas com uma luzinha amarela piscante na cabeça. Tinham se passado apenas 13 Km e 1h19min de prova.

E o alerta não era mesmo falso. A retomada na corrida foi breve, durou apenas mais um quilômetro. O ritmo de 6´37´´ no quilômetro quatorze, apesar das placas aparentemente jogadas ao acaso no percurso, pareceu agora mais verossímil. E antecedeu um trecho dessa vez bem mais longo andando. Com mil metros, menos ou mais, o fato é que o décimo quinto quilômetro durou dez intermináveis minutos. O sol tinha voltado com força. A respiração estava ofegante, mesmo aparentemente sem forçar. Já tinha aberto o primeiro gel no Km 9, agora usaria as duas primeiras pastilhas salgadas, que estreara na Maratona de SP. Passando pelos belos prédios do condomínio chique, gritei baixinho um chega! Tinha ralado muito para estar ali e não ia desistir por causa de qualquer coisinha. A corrida naquele ponto tinha mais pinta de trotinho, mas de passeio, não...

Na Interpraias eu havia conhecido apenas um pequeno trecho da praia de São Lourenço. Só hoje é que seria apresentado de verdade a ela. E, apesar da beleza natural e arquitetônica do cenário, o chão não ajudava nem um pouco. Não era a mesma areia dura da Enseada e suas continuações com outras denominações. Não chegava a ser uma areia fofa também, mas a diferença era evidente, a exigência com a musculatura, por conseguinte, bem maior. Os espaços entre os corredores já eram grandes, só dava pra ver gente bem lá na frente ou, de vez em quando, vinda de trás e ultrapassando. Para ganhar posições, só se alguém começasse a andar. Foi o caso do corredor que eu escolhera como coelho. Mal passei por ele, no entanto, e já voltou a correr, tornando a abrir distância. A marcação estava tão bagunçada que teve até pace de prova de 5 Km: 4´24´´ no Km 17. Seria ótimo, se verdadeiro. E se não precedesse uma nova parcial horrorosa, mesclada com outra breve caminhada: 8´42´´ no Km 18. Chegamos ao final da Riviera e pegamos outra curta estradinha de terra para o acesso ao terceiro trecho da prova. No caminho, uma parada para uma hidratação mais caprichada. O morador (ou veranista) botou uma mesinha do lado de fora de casa, encheu jarras com água geladinha e oferecia aos corredores. Tomei dois copões bem servidos, agradeci, expliquei o percurso e comentei com ele o quanto gostaria que a temperatura estivesse igual ao do dia anterior. Simbora pra Itaguaré!

Quando li e também quando o locutor da prova falou sobre essa praia, imaginei um paraíso ecológico. Bonita, e muito, era mesmo. Mas longe de ser deserta e impoluta. Muita gente por ali, principalmente surfistas. E muito lixo, infelizmente, espalhado pelo chão. Vários copinhos vazios largados pelos corredores, mas muito pacote de biscoito e salgadinho, entre outras coisas também. E, se eu tinha achado a areia anterior pouco firme, essa então, era bem pior. O Dimas passou por mim e mandou um "vamos, Namiuti!" e, segundos depois, eu tive que fazer uma nova parada, porque tinha mais areia do lado de dentro do tênis que fora. Tinha formado dois montinhos, um em cada pé, que cutucavam a sola, provocando uma sensação incômoda, que mais pra frente se transformaria em dor. Morrendo de medo de arrumar uma cãibra, tirei os tênis e removi o que pude. Aproveitei também para tirar a camiseta, pra ver se melhorava a sensação de abafamento. Prejuízo grande nessa operação, com parcial na casa dos 9´. Mas pareceu ter resolvido. Sem sujeita e menos acalorado, voltei mais uma vez a correr, com ritmo bem mais fraco que o do começo, mas pelo menos começando com seis. Tive uma sensação breve, mas muito estranha: as pernas pareciam correr sozinhas, independente da minha vontade. Triste era ver que os planos iniciais tinham ido por água abaixo, e muito: a chegada aos 20 Km já superada em doze minutos as duas horas. A matemática passava a ser inimiga mortal do corredor.

O Hideaki, que mesmo com um molho uruguaio suspeitíssimo, tinha feito seu primeiro sub-4h em Punta del Este no domingo anterior (parabéns!), já vinha voltando novamente. E o Guilherme também. Dizendo que o retorno ainda estava meio longe, ofereceu um copo d´água, que aceitei prontamente. O rio Itaguaré, marca da metade da prova, apareceu e, confesso, deu vontade de por ali mesmo ficar. Com as 2h19min ali, a projeção era, ainda muito cedo, de altas 4h38min. Ainda seria um bom tempo, minha melhor marca por quase dez minutos. Mas a disposição para voltar tudo aquilo, com o agravante do ritmo ter simplesmente despencado em relação ao início, era pouca. Três meses de treinos, que tinham me deixado bastante esperançoso em fazer uma grande prova, pareciam escapar por entre os dedos, sem que eu conseguisse fazer qualquer coisa para segurar. Sensação ruim, de impotência diante da situação difícil.

De tanto alternar posições, eu, o corredor do lenço azul e outro veterano, usando shorts amarelo, acabamos por passar a conversar a cada encontro. Incentivos para não parar, para transformar caminhada em trote, brincadeiras para não deixar a motivação cair. Mas não estava nada fácil. A temperatura parecia subir cada vez mais, tornando a cômoda distância de 3 Km a cada posto de água uma enormidade. A areia, movediça, afundando a cada pisada e voltando a invadir o interior dos tênis. A placa do Km 25 aparecendo antes da do Km 24 e confundindo ainda mais o controle. A ausência de um staff para dizer qual era o caminho certo para deixar Itaguaré. Até mesmo a inusitada visão de uma grande tartaruga marinha morta, logo ali na areia (ela estava ali na ida?). Tudo parecia conspirar para o péssimo momento psicológico. Ao voltar para a Riviera, tomei uma decisão: ia abandonar a corrida. Não sentia cansaço ou dores, mas, bloqueado, simplesmente não estava mais conseguindo correr. Três quilômetros seguidos com tempos medonhos, entre 8´ e 11´. Parei em um orelhão e resolvi ligar para a Janete para avisá-la disso. Chateado, pedi desculpas por decepcioná-la. Ela não me cobrou absolutamente nada, pareceu entender e apoiar os meus motivos, apesar de saber o quanto era importante pra mim terminar essa corrida. Ofereceu para conseguir um táxi para ir me buscar, o que recusei, dizendo que daria um jeito de voltar. Mas que jeito seria esse? Não tinha simplesmente ninguém a quem pedir ajuda. Os únicos carros ali eram do pessoal que estava na praia. Nem tentei, mas duvido muito que sensibilizaria alguém, na maior parte, gente com pinta de cara cheia. Não sabia a que distância exatamente estava a estrada (depois veria no mapa que eram 2 Km em linha reta), mas dava o maior medo de ser longe à beça ou me perder no caminho. Além de não ter também um tostão no bolso. Sem alternativa, resolvi seguir adiante. Ainda disposto a não terminar a prova, talvez só trotar e andar pela Riviera até chegar de volta ao Indaiá, onde imaginei ser mais fácil conseguir um reboque.

Como já tinha acontecido no Rio e em São Paulo, as caminhadas tinham mantido o lado cardiorrespiratório bem preservado. Tinha hora que até parecia que dava pra correr, como no novamente ilusório quilômetro com parcial de 4´21´´. Mas, logo vinham choques de realidade, com novas parciais altíssimas e desanimadoras. A segunda passagem pela Riviera pareceu interminável, a praia parecia que não acabava nunca mais. Eu tinha até esquecido da barreira de pedras e achei que tinha perdido a saída. Estava meio desnorteado. Demorou uma eternidade, mas finalmente ela apareceu. E o riozinho da ida, logo depois, já tinha subido bastante. Da canela, a água chegava agora à cintura. O casal de corredores que passou por mim ali ainda brincou que era proibido nadar. Desclassificação para quem tentasse? De maratona, a prova tinha virado um duathlon.

Quando eu corria, até o fazia mais ou menos bem. Mas a cada hora aparecia um incômodo diferente. A travessia tinha enchido novamente os meus tênis de areia. E agora, com os pés mais sensíveis pelo esforço, não só atrapalhava como também doía. Pensei até em tentar correr descalço, mas achei que pioraria ainda mais as coisas. Cada vez que os montinhos batiam na sola do pé, eu via estrelas. Deixamos as ruazinhas sinuosas entre São Lourenço e Indaiá e voltamos à primeira praia do trajeto. Pedir carona pra voltar? Eu tinha desistido disso ali atrás, quando pedi ajuda para o staff de bike e ele perguntou, tirando sarro, se eu queria ir sentado no guidão. Eram ainda doze quilômetros pra chegar, mas não me restava alternativa senão percorrê-los, custasse o que custasse.

Reencontrei novamente o Guilherme no mesmo trecho do grampo, dessa vez andando e já sem a companhia do Luis. Ele voltava, enquanto eu ainda seguia no sentido inverso, rumo a uma segunda passagem pela tenda do isotônico. Dessa vez não seria só o restinho. Parei, peguei um copo cheio e geladíssimo, bebi. E enchi outro. Perdi um bocado de tempo por ali, mas ganhei um bocado de disposição adicional. Deu até pra vislumbrar uma volta em trote, sem mais nenhuma caminhada até o final. Só faltava combinar isso com o corpo, que já dava sinais de desgaste na zona do urso caronista. Chegou um ponto em que a dor na sola foi tão intensa que eu tive que parar. Sentei no chão, tirei os tênis, joguei fora o excesso de areia. O alívio era grande, mas só durava até a primeira onda me alcançar e ensopar tudo de novo. A maré alta, segundo o locutor no começo da prova, só nos deixaria usar a "raia 1" na ida. Na volta, era pela "raia 4", e olhe lá... Outra coisa que ficava bem mais visível agora na volta era o esgoto. Em alguns trechos, banhistas eram premiados com ondas marrons. Um corredor, a Janete me diria, disse brincando depois que no kit deveriam vir desinfetante e antibióticos.

A molecada, ali pelo Km 33, pareceu que estava incentivando, pra logo depois perguntar se eu ia dividir o prêmio. No dia em que eles fizerem uma maratona, talvez entendam. Dali até o final, que dava pra ver lá longe (e, como em 2007, parecendo não chegar perto nunca, por mais que se corresse), seria um esquema de tentar correr 2 Km sem parar e andar um pra descansar. Mas, àquela altura, mesmo o quilômetro corrido era com tempo bem alto, acima dos 7´, quase beirando os 8´. E o andando, dependia da distância das placas jogadas pelo caminho. Teve uns feitos em 9´, mas teve até um (o 37) com 15´30´´.

Os dois corredores já tinham se tornado definitivamente meus companheiros de percurso. Oferecíamos o que estava ao alcance uns aos outros. No meu caso, gel; no deles, água e até refrigerante. Fiquei com maior vontade de aceitar a Coca, mas fiquei com medo de misturar com a pastilha de sal e dar revertério, pra terminar de ferrar com tudo. Tinha hora em que eles ultrapassavam, sumiam na frente e parecia que não íamos mais nos encontrar. Mas logo ali na frente voltavam a andar, como eu, sem conseguir manter nem um trotezinho básico contínuo.

A Janete tinha me feito um pedido na noite anterior, durante o jantar. Que eu me lembrasse dela nos 5 Km finais, do esforço que ela fazia para me acompanhar em tantas corridas, mesmo sem participar delas. Quantos são os cônjuges de corredores(as) que dão esse apoio incondicional? O que a gente vê por aí, muitas vezes, são pessoas que ignoram ou até são contra esse "negócio de corrida". Não conseguiria ter o final de prova que ela merecia como homenagem por tudo que já fez e que continua fazendo por mim. Mas dedicaria a ela a conclusão dessa prova dificílima. Era algo que eu devia a ela, como também a mim mesmo.

As projeções de resultado iam ficando cada vez mais altas. As cinco horas, que eu imaginava como desastre total e que quase me fizeram desistir, ainda no começo do retorno, já seriam lucro àquela altura. Os meus tempos ruins de Rio e SP, então, quase recordes mundiais. O forte, local da largada, já começava a ganhar contornos mais nítidos, mas ainda parecia bem longe. Ao chegar no último posto de hidratação, no Km 39, pensei em abrir um quinto e último sachê de gel, mas o que tinha no bolso era sabor banana ou baunilha. Embrulharam o estômago. Terminaria sem eles. A água já era quente, a cara dos staffs era de quem estava louco pra ir embora almoçar. Eu também...

Finalmente apareceu um placa começando com quatro. Agora faltava muito pouco pra andar, decidi que ia fechar a prova correndo. Só rateei um pouco ao passar por um riachinho e encharcar pela milionésima vez o tênis. Aí, resolvi tirá-lo de uma vez por todas. Fiquei só de meias, andei alguns metros e resolvi, só de brincadeira, encarar um trotinho assim mesmo. E não é que a sensação era bem gostosa? Nem mesmo o vento contra, requinte de crueldade da mãe-natureza, tirou esse gostinho do final da prova. O tênis ficou bem melhor na mão do que no pé. O corredor do lenço azul, parceiro de praticamente todo o percurso me chamou e fomos para a reta final (aliás, reta não, foi uma curva final) juntos. Ele disse que estava fazendo simplesmente a sua vigésima oitava maratona e que, tirando a das Águas (Foz), essa era a mais difícil que ele já fizera. Dá pra questionar alguém com tanta bagagem?

O sorriso da Janete ao me avistar, primeiro de longe, depois cruzando o pórtico, valeu todo o esforço. Abracei e agradeci ao colega pela força. E não consegui segurar as lágrimas ao reencontrar minha companheira de sempre. A frustração era grande, ao terminar a prova com inacreditáveis 5h17min, meia hora a mais que em São Paulo. Mas não era maior que o orgulho por não ter desistido. Por contusão, total exaustão ou ainda se me sentisse mal, é claro que eu abandonaria a prova, sem nenhum problema. Mas ser derrotado pela cabeça seria algo devastador e isso pelo menos, consegui evitar. Peguei o kit, que tinha apenas frutas e uma barrinha de cereal e tomei mais dois bons copos de isotônico. A medalha chamou a atenção pela beleza, fiz questão de colocá-la no pescoço e tirar fotos com ela.

O Guilherme nos ligou para saber notícias e fomos almoçar. Fiz questão de parabenizar o amigo pela estreia nos 42 Km (e uns quebrados, GPSs acusaram até 700 metros) e pela loucura, no bom sentido da palavra. Vencido o tabu, estou certo de que ele vai dar continuidade à bela trajetória que vem tendo nas provas. Você vai longe, cara!

Palavras feias como vergonha e fracasso rondaram a minha cabeça durante a viagem de volta e todo o restante do dia. Mas a coisa não é bem assim. Tudo o que ouvi e li posteriormente corrobora a minha percepção da dificuldade muito acima do esperado desta prova. Sigo achando que maratona não é coisa pra mim e que insisto apenas porque sou cabeça dura demais. Mas vou continuar tentando. Quando, ainda não sei, mas um dia, prometo, ainda vou fazer uma maratona bem-feita. De preferência, uma bem menos insana que essa de hoje. Deixem-me descansar, curar as dores, juntar os caquinhos e, daqui até o final do ano, simplesmente me divertir e fazer o que der na telha em relação às corridas. Mas as maratonas ainda vão ouvir falar bem de mim. Muito obrigado a todos que acompanharam, via Twitter ou de perto, a minha preparação; e que torceram por mim.

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 5 (internet, cartão)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (bem tranquila)
- Acesso: 5 (estacionamento fácil e próximo)
- Largada: 4 (pequeno atraso, sem aviso prévio)
- Hidratação: 5 (postos suficientes, bem distribuídos; água gelada pelo menos na ida)
- Percurso: 4 (bonitos cenários, mas a dificuldade adicional da areia fofa prejudicou bastante, além da travessia de riachos)
- Sinalização: 2 (placas distribuídas sem critério e até fora de ordem)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problemas, mas teve corredor trombando com pequenos banhistas)
- Participação do público: 4 (muito mais curtindo praia, mas teve quem apoiasse)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (tranquila)
- Qualidade do kit pós-prova: 3,5 (meio fraco para uma prova tão longa)
- Camiseta: 4 (meio apagada, mas pelo menos fugiu da tradição do branco)
- Medalha: 5 (muito bonita e com data do evento; não vi a da meia para saber se é diferente)
- Divulgação dos resultados: 4 (dia seguinte, tempo bruto)


Média: 4,37






Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/

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