E tome outra dobradinha! Não adianta mesmo, eu não aprendo e nem tampouco meus colegas de equipe. O único consolo é que não somos os únicos. Havia hoje em Guararema, pasmem, até quem tivesse feito a Meia do Rio na véspera! Menos de 24h depois de conquistar um dos melhores resultados da minha trajetória esportiva, lá estava eu novamente, em outra cidade, para encarar mais um percurso de 6 Km enquanto Dona Mara(tona) não vem...
Combinei de ir com a família e passar na volta em um pesqueiro para completar o programão do feriado. Eu não pesco, eles não correm, e fica tudo por isso mesmo. Mas o tempo feio da noite anterior acabou cancelando o programa e me deixou de carro vazio. Antes das 7h20min estava encontrando o pessoal da 100 Juízo (Zebra, Judite, Edward e Natanael) no ponto previamente combinado, à beira da Dutra. Estrada velha de Mogi vazia e sem pedágio, nos mandamos rumo a Guararema. Chegamos à cidade e fomos nos informar sobre o local do evento. Não precisamos nem perguntar: ao ouvir "Bairro do Nogueira", o ciclista que passava deu meia-volta e, nos mandando prestar atenção, deu o roteiro completo. Não teve erro, encontramos facilmente. Os corredores começavam a chegar.
A exemplo de ontem, aproveitei o longo lapso de tempo entre a retirada do kit (ordeira, apesar das exigências típicas de gincana) e a largada para relaxar. Usamos pódio como banqueta, tiramos umas fotos, colocamos as novidades em dia (corredor parece lavadeira, como tem história!). Ao contrário do que parecia poucas horas antes, o dia amanheceu bonito e o sol subiu rápido. O nevoeiro enfrentado na viagem se dissipou e o calor ia só aumentando. A torcida era para que não houvesse atraso, comprometendo ainda mais a prova. Quando ouvimos o locutor dizendo que faltavam vinte minutos, fomos fazer um breve aquecimento. A essa altura, a equipe já havia ganho a companhia do João Carlos e do Acacio. Faltou combinar o esquema da carona, era muito carro para pouco corredor.
Já suando, depois de dez minutinhos de trote leve, fui alinhar para a largada com o pessoal, para trás do pórtico inflável azul. Motivação havia, principalmente depois do belo resultado da prova do dia anterior, mas a sensação era de missão cumprida para o feriado, deixando esta segunda prova apenas como um complemento de quilometragem, sem fins específicos. Combinei com o Edward de seguirmos juntos até onde desse. Com apenas um minuto de atraso, largamos em ritmo não muito forte. A primeira curva estava muito próxima, mal deu tempo de ganhar alguma velocidade e já tivemos que frear. Não precisava, a reta ao largo da praça era longa e poderia ter sido melhor aproveitada.
O regulamento, além de pedir garrafas vazias e outros itens pouco usuais, também dizia que o percurso era moderado. O que se via em volta eram morros que disso nada tinham, mas a palavra tranquilizadora dava impressão de que não os teríamos que percorrer. As minhas provas anteriores na cidade haviam sido em outro trajeto bem diferente, em duas edições da Corrida Francisco Bueno, com 15 Km. Ter que fazer bem menos que isso hoje também era reconfortante. Um corredor local, a quem emprestei o filtro solar antes da prova, nos convidou a participar de uma nova edição dela, agora com percurso de 12 Km, no feriado de 12 de outubro. Gostei da ideia.
O trecho plano foi breve. Depois de entrarmos em outras esquinas, uma inclusive quase me fazendo trombar com um carro parado muito próximo, chegamos na rampa. A subidinha começou leve, quase imperceptível, mas foi inclinando e engrossando a cada passo dado. A placa do primeiro quilômetro apareceu lá no alto do morro. Apesar de não gostar nada de alpinismo, também não tinha até ali qualquer vontade de andar. Trotava e trazia comigo o diretor poucos metros atrás. Quando cheguei à marca do Km 1, apertei o lap que marcou 4:53. Parecia ótimo, ainda mais pela circunstância. Mas não deu tempo nem de ficar feliz. Dali dava pra ver que a pirambeira seguia adiante, ainda mais íngreme e com muito chão pela frente. Pensei nos 42 Km, como já tinha feito no Longão João do Pulo de Guará, uma semana antes da Maratona de SP, e abdiquei do meu direito de correr. Andei, e andei com gosto. O que se via era um monte de gente fazendo exatamente a mesma coisa. Bem humorado, brinquei com a turma em volta que nunca tinha visto uma desistência coletiva tão grande. E que ia voltar e pedir a minha garrafa pet de volta.
Quando finalmente o morro acabou, o que começou foi a parte rústica do trajeto. No plano, voltei a trotar, já pensando nas dores no joelho ao ter que encarar aquela rampa toda, dessa vez abaixo. Veio uma descida forte, que também na volta iria complicar as coisas. Na placa do segundo quilômetro estava também o primeiro posto de hidratação. Peguei meu copo, joguei quase tudo na cabeça e nas costas. A subida, mesmo não totalmente encarada correndo, tinha feito o suor quadruplicar. Sabia que o estrago já estava feito, mas mesmo assim me assustei com a marca de 6´31´´ na parcial. É o tipo de pace que o relógio deveria censurar, aparecendo no display algo do tipo "ah, isso eu não digo!".
Mas a corrida, que já era recreativa antes mesmo de começar, assim continuaria. Logo em seguida já ouviria a sirene do batedor que abria caminho para os ponteiros, já retornando. Topamos com o Nata, o Acacio, o João e o Capitão Zebra, que chamou "vem + eu", frase que é sua marca registrada, com direito até a registro no verso das camisetas da equipe. Respondi, brincando, que só se fosse pra cortar caminho. O jeito era rir, porque o percurso era de chorar.
De volta a um trecho mais ou menos plano, o ritmo já tinha caído bastante. Deu pra constatar isso ao passar pela terceira placa com 5´34´´. O tempo de prova já raspava os 17 minutos. O retorno era confuso, não dava pra saber direito se era pra contornar pelo lado de dentro ou de fora nos cones. E acabei perdendo tempo também com a entrega de uma fita para comprovar a passagem pelo trecho. Tapete de cronometragem parcial pode aumentar custo, mas evita isso. À frente da segunda moça que entregava, algumas fitas azuis enfeitavam o chão, demonstrando que nem todo mundo sabia para o quê exatamente elas serviam.
Mas pelo menos já era o começo da volta. Só de saber disso já animou e até achei que conseguiria melhorar um pouco o ritmo dali em diante. O chão de terra era meio irregular, só a parte central da pista era um pouco mais plana e estável. As beiradas eram descaídas. O resultado era um acúmulo de corredores, mesmo em pequeno número, no meio da pista, tornando ultrapassagens passíveis de negociação. Cheguei à quarta placa, vi o pace de 5´43´´ e murchei um pouco. Acabei voltando a andar, mesmo num trecho quase plano. Perdi várias das posições ganhas ali atrás e, retomando fôlego e juízo, tratei de seguir na caça dos oponentes. Só que isso duraria pouco. A descida de terra tinha se transformado num gigantesco e assustador monstro de argila. Capaz de terminar de estragar com uma corrida que, em nenhum momento, chegaria perto do entusiasmo da véspera.
Aí, sem alternativa, voltei a andar. O Edward, que tinha ficado um pouco pra trás no retorno, emparelhou novamente e, ao invés de seguir no trotinho na subida e me levar junto, optou por me acompanhar na caminhada. Já quase no final da ladeira, convidei-o para terminarmos com o sofrimento, voltando a correr para concluir logo aquilo. Ele refutou e eu segui adiante. Trotinho leve, placa cinco aparecendo com aterradores 8´23´´. Mesmo com a caminhada, esse quilômetro deveria ter um ágio de uns 20%, isso por baixo.
O mais recomendável era concluir essa prova num passeio suave morro abaixo. Mais a última motivação que restava era a de não fazer o pior tempo da história na distância, repetindo ou "superando" os 36´ obtidos no Jardim São Luiz, na vizinha Jacareí, em 2006. Aí, por poucos instantes, voltei a ser o corredor de ontem, acertando a passada e ganhando aceleração na descida. Procurando manter uma postura para não forçar exageradamente joelhos e articulações, mas recuperando um pouco o enorme tempo perdido nas rampas acima. O Natanael apareceu, desta vez para fotografar a minha passagem e a do Edward. No final da ladeira, voltamos ao labirinto das ruas, passamos pela linha férrea (ainda bem que o trem não estava passando justo na hora, imagina ainda ter que esperar a cancela subir!) e ganhamos a reta final rumo à praça. Apareceram o capitão e o João Carlos (valeu pela força!) para puxar o sprint. O Zebra, cujos objetivos são bem diferentes dos meus, sempre diz que não vale a pena arremeter na chegada, mas eu gosto de vez em quando de fingir que corro, pelo menos nos metros finais. Nessa cena fake, ganhei duas posições dessa vez. O cronômetro no pequeno pórtico mostrava tempo acima de 1h10min, mas o vexame também era falso (ou pequeno). 34´21´´ não eram motivo de festa (5´44´ de pace médio), mas ficaram mais de um minuto e meio abaixo do tempo máximo permitido. Dei-me por satisfeito.
As cadeiras colocadas depois da chegada foram úteis, bem como a água adicional entregue aos concluintes. A acelerada de cinquenta metros me deixou meio zonzo. O kit veio num saco plástico com banana e maçã apenas, junto com uma medalha até bonita, mas que devia mais informações que de costume: nem o nome da prova tinha! Constava apenas "Prefeitura de Guararema", ao lado do brasão e logotipo. Teria sido sobra de outro evento na cidade ou o poderosíssimo lobby dos artesãos gravadores em metal? A expectativa pela premiação dessa vez ficou só para o capitão Zebra, os demais perceberam o nível altíssimo dos participantes (e a divisão meio injusta de categorias, de dez em dez anos e, pior, com uma enorme faixa 16-29 anos). Pra piorar, foi anunciado que houvera uma queda do sistema durante a prova, com a apuração tendo que ser manual. Demora à vista. Saindo uma lista provisória, sem querer nada, fui espiar e quase caí de costas. O meu nome constava em último lugar, com um tempo de 1h23min45seg (!). Será que era água mesmo o que tinham distribuído nos postos de hidratação? 14 min/Km é meu tempo outras modalidades esportivas, como o rastejamento em distância.
Felizmente, o problema foi resolvido de forma rápida e indolor: o Petre, da Cronoserv, que eu conhecia do Fórum Runner Brasil, de vista em outras provas e pessoalmente em Bom Jesus dos Perdões, considerou a minha cronometragem pessoal como tempo oficial e jogou meu nome para o local correto da lista. Só que não era o único erro. Choviam protestos de gente que dizia ter chegado antes dos adversários(as) e cujo nome estava depois na classificação. Esperei um tempo, mas, confirmado o primeiro lugar (o quinto seguido em apenas três semanas) do Zebra em sua faixa etária, acabei vencido pela fome e cansaço e peguei a estrada de volta, perdendo a festa do pódio para o nosso capitão. Parabéns a todos os amigos presentes pela participação e resultados. E registro também a satisfação em ter conhecido pessoalmente amigos como o Grigoleto e o Vantuir. Agora é entrar em uma semana de repouso quase absoluto e partir, no próximo domingo, para mais uma tentativa de fazer uma maratona bem-feita. Conto com a torcida de todos.
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 3 ("grátis", mas paga e cheia de detalhezinhos)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 3 (tudo cercado, estacionamos e só um bom tempo depois é que nos falaram que ali não podia)
- Largada: 3,5 (praticamente pontual, mas meio tumultuada por conta da pequena distância entre pórtico e esquina)
- Hidratação: 5 (suficientes e bem distribuídos no trajeto)
- Percurso: 5 (não estava preparado pra ele, mas é um espetáculo)
- Sinalização: 3,5 (placas havia, mas deu impressão que meio mal colocadas)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problema, mesmo com trem no meio)
- Participação do público: 4 (largada/chegada, alguns espectadores no trajeto)
- Chegada/Dispersão: 5 (gostei das cadeiras para retirar o chip)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (sem problemas)
- Qualidade do kit pós-prova: 3 (só frutas)
- Camiseta: - (não teve)
- Medalha: 3 (bonita, bom tamanho, mas era mesmo da corrida?)
- Divulgação dos resultados: 3 (no mesmo dia, tempo bruto, mas com uma confusão danada)
Média: 4
Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/