No ano passado, às vésperas da minha estreia nos 42 Km (ah, Rio, que saudade...), aconteceu um fenômeno interessante: a despangarelização espontânea (fale isso com farofa na boca, se for capaz!). A preparação era voltada exclusivamente para a big one, a prova longa, meta de um semestre inteiro, pra não dizer do ano todo. Mas, o esforço dos treinos, incluindo aí algumas sessões de velocidade, trouxe como efeito colateral a melhoria do desempenho como um todo, mesmo em corridas mais curtas. Na planilha preguiçosa que eu usei na preparação para a Maratona de SP, não rolou isso, muito pelo contrário. Eu andava quase literalmente arrastando o traseiro no chão, obtendo tempos muito assim, assim, tendo enorme dificuldade para manter paces médios abaixo dos 5 minutos por quilômetro.
Nesta terceira tentativa de "virar maratonista" (se é que alguém vira), demorou um pouco pra coisa pegar no tranco. Mas, no apagar das luzes, quando nem mesmo eu esperava mais, finalmente começaram a aparecer alguns resultados interessantes, trazendo ânimo e motivação adicionais para o desafio dos cascudos que vem por aí. Primeiro, semana passada, nos 5 Km da Oscar Fashion Running. E hoje, nesta em Caçapava, minha terceira participação seguida, no terceiro percurso diferente. Antes disso, a minha última corrida com algum destaque havia sido a Unimed Run, no já distante mês de junho.
Por outro lado, boa parte dessa reação parece também se dever à diminuição da carga de treinos de duas semanas para cá. Rodar mais de oitenta quilômetros por semana é difícil de conciliar até com o dia-a-dia, o que dirá com performance, em se tratando de um amador como eu. Baixar gradativamente para a casa dos sessenta, cinquenta e poucos, me voltou a dar pique para um tirinho aqui, um fartlek ali. As pernas, que andaram pesadas à beça, se não ficaram levinhas (e acho que nunca ficarão), aliviaram um pouco. Pareceram bem mais destravadas nos últimos quinze dias. A alegria, que andou fazendo falta em uma ou outra provinha por aí, pareceu também ter voltado. E, sem ela, nada faz muito sentido.
Chegamos cedo à Praça da Bandeira, vendo pelo caminho algumas ruas fora do trajeto habitual das provas caçapavenses sendo interditadas em meia pista. Paramos o carro no lugar de costume e fomos, eu, Janete, Luis Carlos e meus tios (hoje até havia caminhada, mas, sem divulgação prévia, eles acabaram não participando), encontrar os amigos. A presença foi menor que a de costume, motivada talvez pelo feriado e pela concorrência com outro evento em São Sebastião (e também com a Meia do Rio). Mas não faltou mão para apertar. A 100 Juízo, hoje representada, além de mim, por Zebra, Natanael, Acacio, Paulo Gallo e Flávio (mais dois amigos estreando oficialmente com os malucos do asfalto), Mayke e Rafael (a nova geração da equipe). Edward, presente, mas hoje apenas como fotógrafo, guardando forças para os 6 Km no dia seguinte, em Guararema. Presença dos amigos de sempre, habituês das provas locais. E também visitas ilustres, como a do combatente Nadais, fã do Vale; e a do Bruno, joseense radicado no momento em Sorocaba, amigão de Orkut que finalmente conheci ao vivo hoje. Vi meu nome na lista, peguei tranquilamente meu kit e mais tranquilamente ainda sentei por ali e fiquei só na boa, esperando o tempo passar. Dorival Caymmi não faria melhor...
Quando eu finalmente achei que ia dar uma aquecida, vi todo mundo se dirigindo para a largada e pensei: pronto, já era mais uma corrida... Mas nem esquentei a cabeça. Quando disparou o tiro (cruz-credo, o que foi aquilo, eu quase me joguei no chão, hehehehe...), mesmo lá na turma do fundão, comecei a correr na boa, no passo típico das provas prazerosas e descompromissadas. Percurso mudado mesmo, nada de dobrar à direita e pegar viaduto. A curva dessa vez foi à esquerda, ficando do lado de cá da linha de trem e seguindo ao lado dela. Logo à frente estava a dispersão e eu não resisti: vendo o morrão que ficava só para quem iria correr os 10K, eu pensei alto: que alívio fazer os 5K! Depois apanha e não sabe o porquê...
Se a largada já tinha sido tranquila, sem tumulto e só ouvindo os gritos de guerra do pessoal do exército correndo em bloco lá atrás, com a divisão, ficou ainda melhor. Entramos na Avenida Brasil, plana e reta. Pelo cantinho da pista, fui deixando para trás bastante gente que tinha disparado na frente no início da prova. Imaginei que a prova secundária, como havia sido em alguns eventos anteriores, talvez não estivesse sinalizada. Mas fui surpreendido agradavelmente pela placa do primeiro quilômetro logo ali, no chão (as do percurso principal estavam suspensas), mas bem visível. A passagem por ela aconteceu com 4´59´´. Normal, nada forte demais e nem tampouco prejuízo, ainda mais para quem corria sem metas específicas. Seguimos pela longa reta, cenário de outras provas, inclusive da própria edição do ano anterior desta, passando ao lado da rodoviária e rumando em direção à Dutra. A placa do Km 5 do percurso de 10 eu tinha visto ao passar de carro pela rodovia. Sabia, portanto, que vinha encrenca por aí, que a alegria do trechinho plano iria durar pouco.
A segunda placa veio bem antes do previsto, ainda antes de entrarmos na Henry Nestlé. Apertei o botão vermelho do relógio e vi que ele não serviria para muita coisa hoje. Quem me dera ser capaz de fazer 1 Km em 3´38´´, ainda mais não sendo apenas 1 Km! Continuaria marcando as parciais dali em diante, mas ainda mais sem neuras depois dessa placa totalmente fora de posição. Viramos à esquerda no final da reta, contornaríamos por dentro a rotatória e... simbora morro acima! Ainda bem que com um copinho d´água na base dele pra ajudar.
A Nadir de Taubaté andou sumida das corridas por um tempo, mas é sempre legal encontrá-la. Afora a simpatia, a solidariedade que ela demonstra com todos os colegas de esporte, incentivando-os permanentemente, ela é uma ótima referência para mim. Quando eu a alcanço durante uma prova, sei que estou correndo bem. No meio da ladeira eu emparelhei e ela perguntou se eu estava vendo lá atrás a concorrente dela. Não estava (quero dizer, estava, mas eu não vi). Aproveitei o morro pra passar, mas bastou voltar ao plano, virando novamente à esquerda para pegar a Av. Coronel Manoel Inocêncio, entrada principal da cidade vindo da Dutra, para ela retomar a posição e se tornar a coelha da vez. Não deixá-la fugir muito seria a motivação para a metade final da prova, onde o fôlego já começava a ficar curto. A placa três chegou e o pace nela já pareceu bem mais coerente, de 4´30´´. O pórtico de chegada já aparecia ao longe, mas o caminho até ele não tinha como ser reto. Era ficar de olho pra ver onde é que viraríamos para inteirar a distância prevista.
A guinada foi novamente para o lado esquerdo, entrando dessa vez na Rua Comendador João Lopes. O ritmo parecia mantido, mas a placa do quarto quilômetro, no final da rua, pouco antes de viramos à direita para iniciar o retorno, passou com 4´ cravados. Mais uma marcação equivocada, sem dúvida nenhuma. Mas, àquela altura, o número que interessava era outro, o de 17´08´´ do tempo parcial. Bagunças à parte nas placas do percurso, um tempo excelente parecia totalmente ao alcance naquele momento, bastando para isso não esmorecer neste finalzinho de corrida. A Nadir já tinha sumido um pouco na frente, correndo forte à beça. Nova dobrada à direita e pegamos a Marquês do Herval, trecho já bem conhecido de outras provas na cidade. Com a óbvia vantagem de não pegar as subidas lá da parte anterior dela. O trecho paralelo ao da ida tinha a mesma distância nessa volta e retornava à avenida principal, agora bem mais perto da reta final da prova. O sprint seria bom, se houvesse gás para ele. Preferi administrar e chegar apenas bem, depois de ser brevemente acompanhado pelo Natanael. Passei pelo pórtico com 21´ baixos, 20´49´´ na minha cronometragem. Ficou evidente de que ali não havia, nem de longe, 5 Km. Mas, de qualquer maneira, valeu uma frase do Goes que interpretei como elogio, e dos bons: "você não corria desse jeito!". Vinda de um cracaço como ele, é de deixar qualquer um lisonjeado.
Outra surpresa agradável foi o kit. No ano passado, a decepção foi por conta de esperar medalha de participação e ganhar no lugar dela o certificado. Desta vez, ciente disso pelo regulamento divulgado com antecedência, sem problemas, serviu de lembrança de participação como qualquer outra. Mas a sacolinha veio recheada: frutas, chocolate e isotônico. Camiseta regata simples, mas de boa qualidade. Para quem esperava voltar bem menos carregado, ficou de ótimo tamanho.
O burburinho começou logo em seguida. O locutor anunciou distância aferida de 4820 metros. Nem estava tentando calcular pace de cabeça, mas sabia que, mesmo esses 180 de desconto trariam um número absurdo para a minha realidade, abaixo dos 4´20´´. Havia gente dizendo que devia ser isso mesmo, outros achando que, no máximo, eram uns 4,5 Km. E até quem especulasse mal passar dos 4! A ansiedade era para chegar a um computador e medir o trajeto, fotografado no mapa divulgado no local. Mas antes disso, pausa para comemoração: Natanael quarto, Acacio quinto e Flávio sexto colocado no geral. Zebra campeão da categoria supra-60. Rafael terceiro e Mayke quarto no 15-17. A 100 Juízo, mesmo hoje sem os grandes Manoel e João Carlos, marcando presença no pódio. Amigos de outras equipes, como a Irma (primeira no geral), o Wilson, o Mineiro e o Alexandre, também fizeram bonito. E quase todo mundo com quem conversei depois da prova também parecia bastante satisfeito com seus resultados pessoais nos 5 e 10 Km. Felicitações a todos! E um parabéns especial ao Souto, que vem evoluindo bastante, cravou 24´ hoje e beliscou um quinto lugar da categoria, que não sei nem se levou, já que acredito que tenha ido embora antes da premiação.
E satisfeito também ficaria eu. E não só por ver a prova evoluir bastante em relação às outras duas edições. Depois de visitar a família Matheus e conhecer pessoalmente o Leonardo, filho do casal (seja muito bem-vindo, garoto; que Deus o abençoe e ilumine sempre o seu caminho, que você traga sempre alegria e constante aprendizado para seus pais, pessoas a quem tão bem todos queremos); de volta à base mediria o percurso. Chegaria, via MapMyRun, a uma medida aproximada de 4,53 Km, o que me daria nada menos que o meu melhor pace em todas as corridas: 4´36´´. Melhor até que aquele pra lá de duvidoso 4´37´´ de 2007 em Aparecida. Pela primeira vez acima dos 13 Km/h de média em uma prova. Não é nada, não é nada, mas é sim algo para comemorar. Não é todo dia que se consegue o melhor tempo da vida, né? E, cá pra nós, planejado é bom, mas, de surpresa também é. Que venham as próximas!
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 5 (internet, gratuita)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 4,5 (estacionamento fácil e relativamente perto)
- Largada: 5 (pontual e organizada)
- Hidratação: 5 (posto único suficiente nos 5 Km e no local adequado, perto do meio da prova)
- Percurso: 4 (interessante, mas ficou devendo distância)
- Sinalização: 3 (fiquei contente por ver as placas e triste por não estarem nos locais corretos)
- Segurança/Isolamento do percurso: 4,5 (não fechado para o trânsito, mas bem controlado)
- Participação do público: 4 (concentrado na largada/chegada)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (tranquila)
- Qualidade do kit pós-prova: 5 (excelente para inscrição grátis)
- Camiseta: 4 (elemento surpresa)
- Medalha: 3 (ainda prefiro a boa e velha medalha, mas certificado, desde que avisado antes, também serve)
- Divulgação dos resultados: 4,5 (no mesmo dia, tempo bruto apenas)
Média: 4,43
Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/