No começo deste ano, eu havia tomado uma decisão: em protesto pacífico e estritamente pessoal contra aumentos que considerei injustificados nos valores das inscrições, não mais participar de eventos de corrida promovidos pela Corpore, sigla da associação dos Corredores Paulistas Reunidos. E vinha mantendo firme este propósito, abdicando até de provas de que gosto muito, como a Meia Maratona de abril. Não mudei de ideia, mudaram para mim. Participei de uma promoção-relâmpago no Twitter, patrocinada pela Samsung Esportes (a quem agradeço) e que dava convites aos dois mais rápidos ao responderem uma determinada pergunta. Lamentei muito quando soube que a data coincidiria com outra prova preferencial em meu calendário, a do aniversário de Pindamonhangaba. Esta deveria acontecer em 11 de julho, mas era a data da final da Copa do Mundo, quando ainda havia esperança de que um certo anão da trupe de Branca de Neve nos conduziria até ela... Mais uma vez fui para um lado e meus companheiros de equipe 100 Juízo, para outro. Espero não ser expulso do grupo!
Sem os amigos de sempre, mas com a abnegada companhia da Janete (acordar às quatro horas da matina em dois domingos seguidos, confesso, é osso duro, até para os mais aficionados), enfrentei o frio cortante da madrugada e uma estrada perigosamente envolta em brumas para chegar antes das 7h no Parque da Independência, local da concentração. Procurei do Ipiranga as margens plácidas, mas confirmei que elas foram canalizadas há tempos... O que procurei também foi lugar para estacionar por perto, já que não havia opções disponibilizadas pelo parque. Fui parar a uns quinhentos metros da arena, deixando o pratinha na mão de parasitas, digo, flanelinhas que, nas ruas da capital paulista e grandes cidades em geral, são uma praga pior que a vassoura-de-bruxa do sul da Bahia. Não perdi o bom humor. Fui, com tranquilidade, fazer a retirada do meu kit pré-prova, auxiliado por uma quantidade bastante grande de guichês e do número de peito discriminado no próprio comprovante de inscrição, medida mais eficiente e prática que a boa e velha lista, mesmo quando divulgada com antecedência.
Essa era uma das chamadas provas clássicas, famosas na comunidade de corredores, da qual se diz que uma participação, no mínimo, é necessária no currículo de todos os que professam o esporte. A escolha do lugar, certamente, é um dos motivos. Muito bonito o parque, com o prédio imponente do museu, o monumento, os jardins. E ainda mais adornado com a exposição de viaturas antigas dos bombeiros, homenagem justa à valorosa corporação, cujo dia se comemorou em 2 de julho (justamente a resposta que me dera de brinde a inscrição). Cumpridas as etapas iniciais, de retirar e pendurar na farda celeste e tênis os acessórios para a prova, admirar o cenário e fazer o pipi-stop (para as mulheres, um espaço exclusivo para isso e outras coisas, que a gente só podia ver de longe), fui tentar encontrar os amigos. O horário estava certo, 7h30min; e o local também, o guarda-volumes. Mas o único que reconheci na multidão (e bota multidão nisso, gente à beça, mesmo longe de estar entre as maiores provas paulistanas) foi o Augusto, do blog e da nova marca de camisetas esportivas Vamos Correndo. Recebi a minha, que vou estrear em um treino durante a semana e dar o meu parecer sobre. O primeiro contato, visual, foi excelente. Muito bonita e com tecido nitidamente de ótima qualidade. Tentei achar outros amigos tuiteiros por ali, mas realmente não tinha muito como. Chamado para alinhar, já que o local da largada era a quinhentos metros dali, peguei a Janete e nos mandamos para a largada. A caminho, encontramos o Anderson Consenzo, que hoje tinha deixado a amarelinha da 100 Juízo em casa e corria de azul, com o uniforme de sua assessoria.
Conversando com ele e com um amigo veterano que o acompanhava, quis saber mais detalhes sobre a célebre subida da Avenida Nazaré, característica mais marcante do percurso dessa prova. E que estava logo ali, à nossa vista, do lado direito de quem ia em direção ao pórtico. Realmente parecia desafiadora. Nem longa demais e nem absurdamente inclinada, mas com um pouco de cada coisa, o suficiente para dar à corrida um bom grau de dificuldade. Que eu enfrentaria com gosto, pela primeira vez, depois de tanto ler e ouvir sobre ela. Mesmo com mais uma semana atribulada, que incluiu um treino longo de quase 32 km na quinta-feira (feito sozinho, os companheiros habituais não puderam aparecer) antecedendo esta manhã fria de domingo.
A pontualidade habitual das largadas das provas da Corpore mais uma vez se repetiu. Se houve atraso, foi por conta da diferença do tempo bruto e líquido, devido à quantidade de participantes. Muito embora tenha sido feita uma divisão de baias por ritmo previsto (começando da elite e chegando aos que correm acima dos 6’/km), ela mais uma vez não funcionou muito na prática. No meu lugar correto, o setor vermelho, com pace estimado de 5 por 1, o que vi foi uma multidão de corredores bem mais lentos à minha frente. Fui fazendo um grande número de ultrapassagens, mesmo sem começar no ritmo costumeiramente forte (no meu conceito) das minhas provas deste tipo. Encontrei rapidamente com o Joel, outro corredor-blogueiro-tuiteiro e desejei boa prova a ele. E, ainda na reta inicial, na parte plana da Nazaré, com o conterrâneo Lucelio, mais um valeparaibano que tinha optado por correr longe de casa hoje.
Senti logo nos primeiros momentos que hoje não era dia para tentar buscar uma grande marca. As pernas pareciam meio presas, sentindo falta de treinos de qualidade nos últimos dias. Tinha então três alternativas: me aborrecer e fazer uma prova de má vontade, conseguindo provavelmente um resultado muito ruim; tentar dar uma de louco e forçar a barra, arrancando forças de onde parecia não ter, podendo conseguir ou não (o mais provável); ou deixar tudo pra lá, correr de forma recreativa, se não literalmente passeando pelas ruas do Ipiranga, quase isso. A terceira via foi a escolhida. E acho que foi a melhor opção. Tirar qualquer responsabilidade por resultado, correr pelo lado lúdico da coisa toda. Não prometo que vou fazer isso sempre, gosto também do aspecto competitivo (no que tange a mim mesmo como adversário, e não aos outros corredores). Mas às vezes vou. De pressão, basta a inevitável de outros aspectos da vida...
Assim, quando passei na primeira placa (aquela parafernália eletrônica que mostra tempo e pace médio, mas levando em consideração o bruto, gerando números tão distorcidos que não servem para absolutamente nada) com 5’18’’, nem liguei, dei risada. Parte deste tempo, altíssimo para uma primeira parcial, se devia às negociações de ultrapassagens, mas outra parte, seguramente, era por conta de um ritmo bem mais tranquilo que o normal, que era gostoso de manter, a propósito. Mas fácil não era. A tendência natural é de acelerar. E foi o que fiz. Virando à esquerda duas vezes e pegando a reta paralela, mas no sentido oposto da Rua Xavier de Almeida, fui encontrar a placa dois, que passou com um ainda alto, mas já bem mais comum tempo de 5’03’’. Continuava me sentindo bem, sem o coração na boca e as batatas ardendo de tantas outras corridas iniciadas em ritmo alucinante. E disposto a continuar acelerando gradativamente, sem compromisso, mas buscando o melhor desempenho possível sem sair da zona de conforto.
A temperatura havia subido um pouco em relação ao nosso horário de chegada em SP, mas seguia fazendo um friozinho agradável para correr. Largada às 8h, para quem vem de fora, é um castigo, mas tem lá suas recompensas também. Antes do terceiro quilômetro encontrei o primeiro posto de água e também, vindo no sentido contrário, o Guilherme. Fora da prova, mas fazendo na região (são as quebradas dele!) um treino longo que, mais tarde saberia ser de 24 km. Cumprimentei, mas ele, concentrado, não ouviu. A próxima parcial seria de 4’51’’. Ainda distante da minha velocidade de cruzeiro em provas curtas (as de 10 km inclusas neste conceito), mas se aproximando aos poucos disso. Estávamos agora do outro lado do parque, ouvindo o burburinho da arena, logo ali. Fizemos mais alguns ziguezagues pelo bairro, alternando subidas leves, descidas equivalentes e alguns trechos planos também. A velocidade estabilizou, ficando em 4’56’’ no quarto quilômetro. Os 20’09’’ de tempo parcial até ali é que animaram um pouco, fizeram acreditar até, se a tal da marvada da Nazaré não fosse aquilo tudo, como alguns amigos mais experientes na prova chegaram a dizer, que dava pra me aproximar de um tempo na casa dos 50’.
Veio então o trecho de grampo, na Av. Dom Pedro I. Eu não gosto, muita gente que conheço também não. Mas eles são corriqueiros nos percursos de corridas. Quem faz os mapas, parece que gosta. Mesmo não estando na rabeira da tropa (não a dos bombeiros, que foi aplaudida de passagem), ver gente voltando, quando você ainda vai, parece ser desestimulante. Não foi só por isso, é claro, mas por uma série de fatores, a velocidade voltou a cair. Voltaria para o patamar do início da prova, chegando ao quinto quilômetro com 5’11’’. Final das esperanças de um grande resultado e recomeço do choque de realidade do possível para o dia. Sem maiores traumas, em verdade. Íamos nos aproximando cada vez mais da hora decisiva do percurso. A sexta placa, quase no final da reta do outro lado da pista da avenida e na base do morro, não tardou a chegar. E decretou de vez o encerramento de quaisquer chances de salvar o dia, com uma ainda mais alta parcial de 5’19’’, a pior até então. Comecei a escalar a Nazaré com passos curtos e uma única pretensão: a de não andar. Boa parte dos que eu deixara para trás no começo da corrida retomaram o que lhes era de direito.
A despeito de todo o meu pouco afeto pelas subidas, a sensação era agradável. A de estar em um lugar do qual já ouvira muito falar, e finalmente conhecia pessoalmente, ao vivo e em cores. A rampa não era, a bem da verdade, tão difícil que justificasse a fama, não tão mitológica quanto a da Brigadeiro na São Silvestre, mas quase. Mas ficava longe de ser também uma molezinha. Uma subida técnica, como adoram dizer alguns entendidos do assunto. Que exige bons pulmões, pernas fortes e uma boa dose de disposição. Que tive, aliás. Perdendo muito ritmo e chegando à placa sete, ainda longe do cume, com desoladores 5’58’’. Mas mantendo o tempo todo o passo e a respiração sob controle, sem nenhum momento ameaçando transformar corrida em caminhada. Reencontrei a Janete, no meio da torcida organizada na grade do parque, dei um tchauzinho e segui morro acima, passando novamente pelo pórtico e ouvindo pela segunda vez no dia a bonita voz da cantora e banda, animando os que por ali passavam. O trocadilho dela com a célebre canção do síndico Tim Maia, dizendo que quando a gente ama, não se quer dinheiro, só se quer correr, foi peculiar.
Imaginei que o prejuízo seria em parte recuperado a partir dali. E constatei que, ou esse oitavo quilômetro estava muito mal sinalizado, ou que meu feeling, no qual tanto confio, estava totalmente furado. Sou mais a primeira hipótese. Corri devagar neste trecho, mas não a ponto de cravar 6’18’’ de pace. Pá de cal? Até poderia ser. Mas deu, na verdade, foi vontade de tentar melhorar um pouquinho esse final, que parecia querer se transformar em letra de tango. Os trechos agora eram todos conhecidos, iguais ao do começo da corrida, revisitados em velocidade menor, mas com conhecimento de causa. A recuperação começaria discreta, com a chegada à placa do km 9, em leve aclive, com ainda bem altos 5’30’’. Mas embalaria a partir daí. As placas de faltam 800, 600, 400 e 200 metros, vistas de lado na primeira volta, agora estavam viradas de frente para os corredores. E serviam como uma espécie de incentivo. Cheguei a ensaiar passada de tiro, mas também não era para tanto... O sprint até existiria, iria garantir alguns lugares acima na lista geral de classificação. E uma cena engraçada, que, se sair o vídeo da chegada, vai aparecer: ao ouvir e relembrar das instruções dos locutores, de que os homens deveriam pisar no tapete de chegada pelo lado esquerdo, deixei a pista da direita e fiz uma chegada literalmente em curva. Provavelmente a primeira e única de todas as minhas 137 corridas. Tempo alto, acima dos 53 minutos, pior marca na distância desde o aniversário de São José (que está inclusive para chegar de novo, daqui duas semanas). Mas que acabou ficando até de bom tamanho, diante das perspectivas durante a parte alpina da brincadeira.
Tirando o staff mais realista que o rei, que criou caso por eu querer ficar dois minutinhos conversando com a Janete na grade de isolamento, a dispersão e entrega do kit foram ambos tranquilos, mesmo com bastante gente chegando ao mesmo tempo que eu. A distribuição da camiseta vermelha de manga longa (que apesar de quase igual todos os anos, é artigo cobiçado entre os corredores) foi interessante, dividida em setores por tamanho, que estava inclusive previamente carimbado no número de peito. Da medalha eu gostei bastante: bonita, colorida, com data e distância do evento. Do kit-lanche idem: teve bisnaguinha com peito de peru, torrone (grande), banana, maçã, isotônico e iogurte. Tinha a intenção de ficar mais um pouco por ali, revendo ou encontrando os amigos. E combinado de ir almoçar com o Guilherme, que acabamos reencontrando já na saída do parque. Mas a Janete teve uma indisposição, que nos obrigou a uma mudança de planos, abreviando o passeio e antecipando a viagem de volta. Peço desculpas aos que esperávamos ver e conversar com.
Apesar disso, saímos de lá bastante contentes. Se não com o meu resultado, que, devo reconhecer, não foi dos melhores; ao menos com a oportunidade de poder voltar a participar de um evento desta sempre competente (embora meio careira) organizadora de provas. Se os preços voltarem a ficar condizentes ou se a grama ficar mais verdinha, garanto que passo a ser frequentador mais assíduo, qualidade certamente não é o problema. Do contrário, continuarei procurando promoções na internet que garantam pelo menos algumas visitas ocasionais.
Gostei:
da entrega dos kits antes e depois da prova, de tudo o que recebi, do percurso (apesar da subida matadora)
Não gostei:
da sinalização: acho que o km 8 estava bem errado; e aquele display com tempo bruto e pace distorcido deveria ser aposentado
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4,5 (ganhei, deu um pouco de trabalho pra confirmar no site, mas acabou dando certo)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (muito bem organizada; com essa quantidade de participantes, não ter filas enormes, é um mérito e tanto)
- Largada: 5 (pontual e, apesar do pouco respeito dos participantes, a organização por setores de ritmo continua sendo válida)
- Hidratação: 5 (quantidade suficiente de postos, água em temperatura ambiente, adequada para o dia)
- Percurso: 5 (muito legal, com boas variações e a subida forte da Nazaré; só não gostei do trecho do grampo)
- Sinalização: 4,5 (tirando a do oitavo km, as demais aparentemente estavam corretas; os displays são dispensáveis)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problemas)
- Participação do público: 4,5 (mais concentrado na arena, mas os staffs ajudaram bastante)
- Chegada/Dispersão: 4,5 (o staff não precisava criar caso comigo; no mais, tranquila)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (muito bem organizada, com a divisão da entrega de camisetas por tamanho)
- Qualidade do kit pós-prova: 5 (recheado)
- Camiseta: 5 (até que enfim tenho uma; a outra que o Wilson tinha me dado, a Janete confiscou!)
- Medalha: 5 (gabarito)
- Divulgação dos resultados: 5 (no mesmo dia, com tempo líquido)
Média: 4,87