Ser racional, mas sem com isso deixar de tomar, de vez em quando que seja, decisões com o coração. Se estava rolando uma corrida com nomes esportivos fortes no background a pouco mais de cinco quilômetros do portão de casa, o que levaria a mim e aos meus companheiros de equipe a ir fazer outra, a uma hora de viagem? Simples: não trocar o certo pelo duvidoso. Não falo de conteúdo ou qualidade de kit, de padrão de organização, de percurso melhor ou pior, ou mesmo de premiações. Falo de outras coisas, menos palpáveis, mas que tenho aprendido cada vez mais a dar valor. Falo de consideração, de respeito, de simpatia, de amizade e de carinho. Respeito a escolha de todos e entendo bem quem preferiu ficar (ou vir) hoje em São José para fazer os 5 ou 10 km da Série Delta. Mas eu não. Optei por essa outra, onde chamam a mim e aos meus amigos pelo nome. Gostaria até de ter feito as duas provas, mesmo porque a data originalmente prevista para a que não fiz era a de 25 de abril, mas os organizadores não responderam às minhas tentativas de contato por vários diferentes meios (e-mail, fale conosco do site, Orkut, Twitter e Facebook). Aí não, né?
A intenção era contar com a comitiva familiar completa para essa prova, mas seguidas baixas acabaram me deixando sozinho para o traslado. Aí, em cima da hora, pedi carona em um dos dois carros do comboio rumo a Guará. Pouco depois das 7h, com algum atraso, pegamos a estrada e, com o pezinho pesado do capitão, logo estávamos chegando ao campus, visivelmente menos cheio que na última edição do evento. Estacionar bem mais perto foi a comprovação definitiva. Com tranquilidade e sem filas, fomos fazer a retirada dos kits pré-prova, tomar o imperdível e sempre caprichado café da manhã oferecido pela organização, conversar com os amigos habituais e conhecer pessoalmente outros, como o Romildo, do blog Avicor e os tuiteiros Cláudio Barbosa e Carlos Takeda (e respectivas senhoras). O dia havia amanhecido frio e assim permanecia. Guaratinguetá, sempre chapa quente, estava quase irreconhecível naquela bruma e temperatura. Pra dar coragem de tirar o agasalho e prender o número de peito na camiseta regata deu o que fazer...
Rituais preparatórios concluídos, o jeito era ir aquecer. Ficar parado era pedir para arrumar um resfriado. Aliás, eu vinha me recuperando de um. O ataque de rinite depois do treino coletivo de terça à noite, sob garoa, no novo percurso da Unimed Run parecia que não era nada, mas perdurou por quase toda a semana. Só fui voltar a respirar normalmente no sábado. Mas não tranquilamente. Na noite de sexta, para não ficar totalmente à toa, fui fazer quarenta minutinhos de esteira. No que fui alongar, depois do treininho leve, senti uma fisgada na coxa direita. Tome aplicação de calor e de pomada fitoterápica no local, tratamento intensivo e relâmpago. E tudo isso a pouco mais de uma semana de Porto Alegre. É pra ficar apavorado ou não é?
Mas, entre mortos e feridos, salvei-me. Se estivesse ruim, de pulmão ou de perna, não me furtaria a desistir de hoje. Constatado, no entanto, o apenas susto e afastado definitivamente o risco de prejudicar a prova-alvo, não havia motivos para tanto. Alinhei junto com toda a galera, tendo ao lado amigos como o Edward e o Marco Antônio e, findo o hino (desta vez sem banda, só no playback), com quase dez minutos de atraso em relação ao previsto, disparamos curva e ladeira abaixo. Alguém, no meio da muvuca gritou “olha o bloco” e não era carnaval! Uma enorme pedra solta estava em plena pista, pedindo para ser chutada e/ou causar um sério engavetamento pedestrianístico. Não soube de maiores consequências, felizmente.
A prova começou como sempre. Já era a minha quarta participação seguida e eu tinha certeza de que veria, como de costume, todo mundo abrindo o lacre, como se a corrida terminasse logo ali na portaria. Mas era só mesmo o bom e velho cotovelo, que transforma descida em subida e dá aos mais afoitos o duro choque de realidade. Desejei, de passagem, boa prova à Tania e ao Seneval (cena pra lá de rara, ultrapassar o veloz colega de equipe, devidamente recuperado da contusão) e segui rampa acima. Tinha começado forte, mas não imaginava que era tanto. A primeira placa, ali no topo da ladeira, chegou com apenas 4’29’’. Meio pauleira demais, mas aparentemente sem causar cansaço ou hiperventilação prematuros. E levando a um começo de segundo quilômetro de altimetria bem mais tranquila.
No contorno do primeiro prédio do campus, um corredor deixou cair o controle remoto do alarme do carro e teve a sorte de ser alertado por outro colega. Acertei a passada para o trecho plano e, em seguida, para a rampa abaixo que levava à saída da faculdade. Ali o Seneval, já aquecido, me alcançou de volta. Pensei em tentar acompanhar, mas achei arriscado. Chegamos à rotatória e começamos uma nova subida, da Av. Ariberto Pereira da Cunha, de tantas e tantas outras corridas. E lá estava a marcação do km 2, que completei com 4’33’’. Ajuste natural e espontâneo de ritmo, em busca da velocidade de cruzeiro para a prova. Outro que passou e logo abriu distância foi o Claudio Zamboni, e isso porque ele estava quebrado do futebol da véspera. Imagine se estivesse inteiro...
A hidratação sempre foi ponto forte desta prova e hoje não seria diferente. O primeiro posto de água estava logo ali e, mesmo sem qualquer calor, tive que pegar um copo. O incômodo desta vez não era sede e nem aquecimento corporal, mas um certo congestionamento nasal, denotando que ainda havia resquício do resfriado com que passara a semana. Não foi uma cena bonita e nem das mais higiênicas (eca!), mas parece que resolveu temporariamente o problema. Que me perdoem os(as) leitores(as) mais sensíveis. Desobstruído, segui no sentido da igreja de Frei Galvão, passando pelo percurso da meia maratona de mesmo nome. A terceira placa veio com 4’38’’. Com mais uma subida, ritmo em visível queda, mas ainda sob controle e melhor até que a encomenda.
O trecho era tão conhecido de outras edições, da própria prova e também de outras, que quase dava para correr de olhos fechados (não recomendo!). Os ponteiros já voltavam à toda. Reencontraria neste trecho de mão dupla e com rotatórias o Manoel, o Natanael, o Rafael, o Zebra e o Wagner. O ritmo estabilizaria no quarto quilômetro, que passou com 4’36’’ e, mesmo com uma queda proposital e necessária a partir da metade da prova (parcial de 18’16’’), eu acabaria chegando no início do retorno a uma marca que, se fosse uma corrida de 5 km, seria o meu novo recorde oficial: 23’11’’. Nada menos que 22 segundos a menos que meu recorde, obtido em Sorocaba no sábado passado. Ou a sinalização estava toda errada, ou eu estava fazendo uma bela corrida, dentro, claro, das minhas limitações. No que contornei a boia e peguei a pista oposta, fui reencontrar o Marco, o Edward e a Tania e procurei incentivá-los, como tinha sido incentivado por quem voltava enquanto eu ainda ia.
Mas tudo tem um preço. O ritmo meio mal dosado deste começo de prova iria ser pago com um sexto quilômetro totalmente desastroso. O gás acabou, deu vontade de andar, de parar, de desistir de vez, já que a prova de hoje, a bem da verdade, era muito mais uma “farra” para quebrar a ansiedade pela espera da semana final pré-PoA. Resisti ao impulso. Simplesmente diminuí o ritmo, ladeira acima. Mas o estrago estava feito e tinha sido dos grandes. A próxima marca vista quando apertei o botão lap foi de 5’40’’. Conformado, me contentei em terminar com um tempo apenas melhor que o do ano passado, quando corri meio sequelado e em que a prova pareceu ter 80 e não 8 km apenas. 40 minutos davam e sobravam. E foi o que mentalmente projetei, acreditando que não conseguiria voltar mais o ritmo para nada melhor que 5’30’’/km. Estava errado.
A volta ao campus começou, como sempre, em descida e até deu uma leve (e fugaz) animada. Antes de pegar de volta a primeira subida da prova, reencontrei o Natanael, que já tinha terminado e voltava para acompanhar o Edward e/ou a Tania. Subi bem pianinho, fazendo força para não transformar o passo do urubu malandro de Cantor & Hoffmann em caminhada. E estranhei quando não vi a placa sete no lugar de sempre, pouco antes da curva, quase no final da subida. Ela estava mais à frente, bem mais próxima da primeira, onde também estaria, prova concluída há algum tempo, o Manoel. Mesmo tendo se desligado da equipe, não perdeu o espírito de camaradagem que sempre demonstrou para comigo e os demais companheiros. Deixou o papo com as outras feras e veio me acompanhar no trecho final.
A recuperação já tinha começado, com o penúltimo quilômetro sendo fechado com 5’02’’. E seguiria com a companhia ilustre do amigo. Endireitei novamente a passada, reencontrei um bom ritmo e, mesmo sem arriscar um sprint na última subidinha, que levava ao pórtico de chegada, acabaria concluindo a prova com um tempo bastante razoável. Só pra variar, faltou acreditar um pouco mais em mim mesmo. Seria uma marca apenas seis segundos acima do meu melhor tempo na prova. 37’44’’ contra os 37’38’’ de 2008. Um pequeno esforço em qualquer dos trechos anteriores e o novo recorde dos 8 km estaria estabelecido. Com a franqueza de reconhecer que o percurso não deve ter essa distância correta. Os GPS de Wagner e Seneval chegariam a marcas da ordem de 7640 metros. A minha medida no MapMyRun, a cerca de 7,8 km. Ainda assim, um resultado bastante satisfatório para quem não está, definitivamente, priorizando treinos de velocidade por enquanto. Quem sabe o que pode vir mais para a frente?
Cheguei meio esbaforido, mas logo me recuperei e fui retirar meu kit pós-prova. O Wagner comentou que havia suco nos primeiros, mas, como tinham acabado, estavam repondo com iogurte (ganhei três saquinhos). Para mim ficou de bom tamanho, na sacola de tecido com as frutas, o doce de amendoim, a camiseta de boa qualidade e a medalha gabarito (bonita, de formato original, com nome, data e distância da prova). Independente de questões subjetivas, a prova continua imperdível por simples questão de custo x benefício. Complementei meu lanche com uma fatia do bolo que comemorava o primeiro ano como corredor do novo amigo Cláudio Barbosa (que melhoraria nada menos que 13 minutos do seu tempo de 2009, quando estreou nas corridas). E comemorei com os amigos da 100 Juízo as conquistas nas categorias de Zebra (2º) e Tania (3ª), além do Manoel, também segundo em sua faixa etária. Fiquei feliz também, ligando para o Fabio Matheus depois da prova, em saber que os amigos, da equipe 100 Juízo ou de outras, também conseguiram excelentes marcas pessoais na prova em São José.
Enfim, uma manhã perfeita, que fecha com chave de ouro o ciclo de preparação para a minha quarta maratona. Entro agora na última semana, aquela em que alimentação, hidratação, repouso e checklist são bem mais importantes que o treinamento em si, que já foi feito, bem ou mal. Agradeço a todos os que estão enviando mensagens de incentivo, que sempre são (e serão) muito importantes para mim. E espero conseguir, no próximo final de semana, fazer uma prova mais tranquila, ciente das dificuldades físicas e psicológicas que vou enfrentar, mas quem sabe conquistando ao final um resultado que conte melhor quem é esse camarada que não nasceu para correr, mas que, teimoso e sempre disposto a aprender, continua tentando assim mesmo. Muito obrigado!
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4 (internet, boleto)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 5 (mais vazia esse ano, ficou ainda mais tranquilo)
- Largada: 3 (atraso um pouco maior, local meio estreito de sempre e o tumulto por causa da pedra solta no caminho)
- Hidratação: 5 (continua sendo impecável)
- Percurso: 5 (é clássico e bom e assim deve permanecer)
- Sinalização: 4 (placas visíveis; a mudança tornou o último quilômetro aparentemente mais curto)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (sem problemas)
- Participação do público: 3,5 (largada/chegada, pouca participação no percurso)
- Chegada/Dispersão: 4,5 (melhorou em relação ao funil dos anos anteriores)
- Entrega do kit pós-prova: 5 (com alguma fila, mas rápida e sem transtornos)
- Qualidade do kit pós-prova: 4 (bom)
- Camiseta: 5 (podiam variar a cor, que foi a mesma do ano passado, mas a camiseta dessa vez foi mais bonita)
- Medalha: 5 (como eu disse no relato, é gabarito para ser seguido por outros)
- Divulgação dos resultados: 4,5 (no mesmo dia, com tempo líquido, mas classificação por tempo bruto)
Média: 4,5