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A Visão do Corredor - 5ª Meia Maratona Internacional Frei Galvão


Pode ser a melhor e mais fina iguaria do mundo. Se você comer até se empanturrar, vai acabar enfastiado. Acho que não resta mais, a essa altura do campeonato, dúvida sobre o quanto me agrada correr. Mas o fato é que exagerei, e não pela primeira vez, na dose. Empanzinei-me. É chegada a hora da desintoxicação. Pelo meu bem.

Depois do naufrágio do projeto da Maratona das Praias, o fato é que não reencontrei em nenhum momento a disposição de antes. Engatei uma série de provas seguidas, sem que em nenhuma delas tenha conseguido não apenas um resultado satisfatório sequer, mas, muito mais importante que isso, o meu "modus correndi", a forma de correr que me permitia alcançar metas surpreendentes, não para um atleta propriamente dito, mas para alguém com o meu tipo físico. Estrear nesta mesma prova, quatro anos atrás, por exemplo, com o tempo de 1h50min, chegando junto com gente com IMC bem mais baixo que o meu. A diminuição na carga de treinos nas semanas seguintes à maratona trouxe, ao invés de descanso, considerável perda de condicionamento. Além de indesejáveis quilinhos a mais. Correr, de prazeroso, foi se tornando sacrificante. Acompanhar quem quase sempre estive acostumado se tornou missão impossível. Treinar, tudo bem. Mas disputar provas virou complicação. A comparação com outros corredores nunca me preocupou. Mas a com o que eu era até algum tempo atrás, sim.

Por tudo isso, o tom de despedida marcou essa prova desde o primeiro instante. Bom saber que seria ao menos uma digna: na minha distância favorita, ao lado da minha inseparável companheira Janete e de muitos dos grandes amigos que fiz através do esporte; e na cidade que mais vezes me recebeu (e bem) nessas mais de cem participações em corridas de rua. A primeira decisão que tomei foi a de curtir ao máximo cada momento. A começar por não medi-los. Tirei do pulso o relógio e iria correr sem o comportamento quase obsessivo-compulsivo de apertar botões a cada placa de quilometragem.

Com a garra do nosso Capitão Zebra, a condução que parecia inviável acabou sendo conseguida junto ao pessoal da Secretaria de Educação (a quem agradecemos pelo apoio), de última hora. Só faltou um pouco de recheio nessa van. Fomos desfalcados de alguns nomes importantes da equipe. Mas teríamos também reforços: a volta do Fabio Matheus e as visitas ilustres do Guilherme e do Ricardo Hoffmann. Chegando ao local da prova, encontraríamos ainda vários outros amigos, entre os quais as também ilustríssimas visitas de Ivo Cantor e Marly, Rodrigo Tandaya e Adriana. Quem não definia se vinha ou não era o sol. Às vezes aparecia e fervia tudo, outra hora se escondia atrás de uma nuvem e parecia que ia nos deixar correr em paz. Toninho, inquieto como sempre, querendo aquecer meia hora antes. Eu ali, contemplativo, fazendo tudo muito lentamente, como seria o ritmo da própria corrida para mim. Deixei para ir ao banheiro da escola na última hora e me arrependi amargamente. Alguns "compartimentos" ocupados e, no único livre, me senti em um estábulo. Que me perdoem os estômagos mais fracos.

Chamado para a largada, alinhei. Já passavam dez minutos do horário previsto. Que bom finalmente terem cumprido a promessa da mudança. Para quem já tinha largado às 10h, depois da missa, sob um sol de 36ºC, o das 9h de 2008 já tinha sido um avanço. Mas o das 8h era ainda mais adequado e condizente com a distância a ser percorrida. A Janete apareceu no meio do povo para tirar fotos mais próximas e quase foi atropelada depois do fuóóó. Veio um punhado de gente dizer que ia correr comigo. O xará Matheus, o Cláudio e até o Acacio. Só faltou o Luiz Paulo Antunes e a Marizete Rezende! Meus planos, na verdade, eram bem mais modestos. Eu até sonhava, lá no fundo, com um sub-2 horas para encerrar bem essa temporada de corridas. Mas sabia que isso hoje era utopia. Quase todo mundo disparou na frente, quem ficou na minha batida inicial foi o Ricardo. Seguiríamos juntos por um bom trecho. Ao fim da primeira reta, viramos todos à esquerda para pegar a rua da feira. Cheiro de peixe, pastel e abacaxi, não necessariamente nessa ordem. Ao final dela, já a primeira placa de quilometragem, grande, amarela, patrocinada (boa sacada!) e bem visível. O dedo fez o movimento automático, mas não havia nada para ele pressionar. Era até um alívio não olhar e ver ali um número começando com seis e alguma sobra. O pessoal começando a desaparecer no horizonte falava por si só.

O sol continuava seu joguete sarcástico. As breves pausas não davam tempo nem de refrescar. Ainda bem que havia água em quantidade mais que suficiente. O posto da metade da prova já estava montado e houve quem já começasse a correr de copinho na mão. O meu eu dispensei, mas não o da chegada ao segundo quilômetro. Ali já começava o ensopamento. O chuveiro já estava montado, mas dele não pingava uma gota. Apareciam os primeiros desníveis. A subida não era forte e nem longa demais, mas tinha um pouco de cada qualidade (ou defeito?). Tinha a descida correspondente, só que mais curta. E a lateral da FEG, velha conhecida de outros percursos na cidade. Ainda bem que apenas parte dela. O retorno era bem antes do final da descida. Ir até a rotatória do clube seria muito bom na ida, mas na volta...

Esquecendo que o companheiro de prova estava munido de GPS, perguntei retoricamente a quanto ele achava que a gente estava rodando. A resposta foi um número exato: 5´45´´. Chegou a me surpreender positivamente. Era um número muito mais alto que os meus inesquecíveis 5´15´´ médios em 2006 e bem acima dos 5´30´´ e poucos para fechar abaixo da meta. Mas a minha expectativa era estar ainda mais devagar. O retorno depois das primeiras lombas era recompensador e certamente fazia aumentar essa velocidade média. A corrida até então era agradável, apesar do forte calor e prometia ser diferente das mais recentes. A volta ao trecho plano mostraria as primeiras alterações em relação ao percurso dos anos anteriores. Ao invés de virarmos à direita e pegarmos a avenida do depósito de material de construção que virou posto de abastecimento na fatídica edição de 2007, seguimos reto, fazendo o mesmo caminho da ida, no sentido inverso. Mudanças sutis, mas, mudanças.

A cena de terror no banheiro da escola abreviara a minha presença por lá. E começava a ser notada. Veio a primeira sensação desagradável, mas ainda passível de continuidade da prova. As próximas seriam piores. A visão do pórtico quando chegamos bem perto novamente da largada, me fez tomar uma decisão difícil, mas necessária. Tinha que fazer uma parada forçada. Um banheiro químico pelo caminho ou qualquer outro não público, mas que pudesse ser usado, iria causar atraso, mas ao menos ainda me manter na corrida. Ter que andar trezentos metros até ele, no entanto, acabaria de vez com qualquer possibilidade de continuar correndo. Passaram de volta o Manoel e o Nata, já quase completando a primeira volta; e incentivaram. O Manoel, inclusive, correndo apenas como treinamento, voltaria e me faria topar dar um trote para agilizar um pouco a situação. A expressão da Janete foi de frustração. Peguei a água de coco, preparada para ser usada ao final do giro. Resolvi o problema e, incentivado por ela e pelo Jota Júnior, assistindo e acompanhando o pessoal de sua equipe, optei por não desistir. Correr, mesmo sabendo que não faria todo o percurso, pelo menos a segunda metade. Tinha cortado, por conta dessa emergência, pouco mais de quatro quilômetros do trajeto. Voltar, retomar de onde tinha parado e fechar a primeira volta inteira, aí também era abnegação demais.

Aí o que já era recreativo, virou de vez um treino de luxo. Correr sem preocupação com paces já era gratificante. Sem compromisso nenhum com resultado, então, por alguns instantes me deu uma sensação magnífica de liberdade. Igual a descrita por tantas outras pessoas que já passaram pela experiência, como por exemplo o amigo Michel, na Meia do Rio. E como o grande e sábio comandante santista Marildo, que faz do prazer de correr sua filosofia de vida. Só o calor é que parecia jogar contra. Começava a esquentar a água dos copinhos. Ainda bem que, dessa vez, tinham ligado o chuveiro. O chuá foi curto, mas bem gostoso.

Ter "roubado" me colocou momentaneamente ao lado de corredores bem mais rápidos. E eles foram só me ultrapassando. Como eu estava ali para curtir, usava alguns como coelhos, tentava variar o ritmo, acompanhar a passada na subida. Quando me dava na telha, entretanto, diminuía e deixava irem embora. Na Volta à FEG (e não a da FEG), senti que tinha um pedregulho na sola do tênis e resolvi encostar na grade para retirá-lo. Dei azar. Acho que uma das únicas pontas soltas do alambrado resolveu quase furar meu cocuruto. Enquanto eu resolvi andar para dar uma refrescada, passaram por mim o Cláudio e o Tonico e mandaram uma força. Já tinha visto na pista oposta novamente o Natanael, o Zebra (agora na companhia do Manoel), o Acacio e o João Carlos. Depois de contornar o grampo, quem reapareceu foi o Fabio Matheus e o Toninho, surpresos talvez pela minha presença à frente. A ultrapassagem tinha sido tão rápida que eles nem notaram, hehehe... Pouco depois, reencontraria também o Ricardo, encarando pela segunda vez a rampa. A torcida era para que todos fizessem a melhor prova possível.

Tá tudo muito bom (bom), tá tudo muito bem (bem), mas, realmente... A comemoração iria acabar em breve, e pelo mesmo motivo dantes. Dessa vez, felizmente, tinha um posto de combustível no caminho. O frentista gente boa disse que era só entrar ali no box da troca de óleo. Demorou quase tanto quanto... Mas, como disse o staff, agora ia. Restava saber se dava vontade. A placa dois pelo avesso me incentivou a retomar o trote, mas a intenção momentânea era voltar direto e reto ao ponto de partida, fechando o dia com apenas uns treze quilômetros. Chegou o cruzamento e eu tinha que decidir o que fazer. Não no uni-duni-tê, mas quase, optei por pegar o rumo da ponte. Ao longe, andando, via alguém usando a farda laranja da 100 Juízo e, embora aquela fosse cena rara, dava para ver que era um velho parceiro. Trotei para alcançar o Toninho e agora tinha certeza de que a escolha fora acertada. Terminaríamos mais uma prova e eu teria o privilégio de fazê-lo novamente ao lado desse grande amigo.

E fomos batendo papo pelo caminho, o mesmo das edições anteriores naquele trecho, um verdadeiro tobogã. Ele sentira o calor e, mesmo com o ótimo volume de treinos que vinha fazendo, perdera contato com o Fabio Matheus, que abrira boa distância. Questionava a possibilidade de correr um dia uma maratona. Se tem alguém que eu não tenho nenhuma dúvida que chega lá, é ele. Disposição para treinar não lhe falta. É o camarada que quer fazer simulado de percurso de 42 Km, inclusive! Só me avisa quando é, pra eu poder viajar no dia...

O trotinho era confortável e só virou caminhada na subida mais forte depois do último posto de água e antes de voltarmos ao trecho da ponte. Passando por sobre o rio, nos deparamos com uma procissão em homenagem ao santo brasileiro que dá nome à prova e quase não tivemos espaço para passar. A placa 21 estava na esquina, denotando uma reta final com menos de 100 metros. Fajuta. Ali tinha bem mais que isso, talvez quase o triplo. A minha intenção era passar ao lado do tapete de cronometragem, fazendo justiça ao deixar meu nome fora da lista de classificação. Mas não me deixaram muita alternativa. Fecharam o lado esquerdo e deixaram apenas a opção de não entrar no funil. Tendo pago regularmente a inscrição, não queria também correr o risco de ficar sem meu kit pós-prova. Peço desculpas a quem ficou depois de mim na lista. Ao menos consegui o gesto simbólico de abrir caminho para que o Toninho chegasse à minha frente. O imprevisto tinha acabado com a minha prova, mas o simples fato de ter tido disposição de dar uma segunda e descompromissada volta já me deixou satisfeito. O tempo, segundo o Toninho, tinha sido na casa de 2h10min. O "líquido"? Sabe-se lá... Tanto faz!

Recebemos (valeu de novo, Nata!) uma sacola com medalha (idêntica à da edição anterior, mudando apenas o número da edição), camiseta (que pareceu mais ventilada que as anteriores, mas de qualidade inferior), uma barra de cereal e o hidrotônico. Faltou fruta, problema atenuado pela gentileza do nosso patrocinador (Marquinhos Hort-Frut), que nos cedeu uma caixa cheia delas. O piquenique pós-prova foi farto, animado e reuniu muita gente em torno da van. Teve até isotônico sem comparação.

A 100 Juízo, depois de bastante tempo, ficaria fora do pódio em uma corrida, mas com mais que honrosos quarto lugar do Zebra e sexto lugar do Natanael em suas categorias. Bons resultados também do João Carlos, do Acacio (fazendo sua primeira meia) e do Fabio Matheus (conseguindo um belíssimo tempo abaixo de duas horas). Ricardo, inscrito como 100 Juízo honorário, chegaria baleado, mas certamente feliz por vencer o desafio. Guilherme, sentido cãibras e Edward, mediante planejamento, tinham feito apenas a primeira volta. Talvez não tenha sido a prova dos sonhos de ninguém. Mas acredito que todos nós tivemos algum aprendizado hoje. O que é sempre válido.

E, por mim, falo do meu: se não cheguei ainda à conclusão que não vale a pena fazer um monte de provas a esmo (até porque corro por saúde e diversão), certamente aprendi que existem momentos em que é preciso fechar para reforma, por tempo indeterminado. Resultados não são o único fim, mas a seguida falta deles mostra que tem coisa errada. Acho que é hora de bolar uma versão 3.0 desse que vos escreve. A versão 1.0, pré-corrida, era fumante, sedentária e obesa. A 2.0 até funcionou bem, mas, pelo visto, está com prazo de validade vencido. A nova, quem viver verá, ainda vai dar o que falar.

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4 (internet, boleto)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 3,5 (mais uma vez complicado)
- Largada: 4,5 (atraso pequeno, mas que serviu pra esquentar um pouco mais)
- Hidratação: 5 (neste aspecto, corrigiram todas as falhas: impecável)
- Percurso: 5 (muito bom)
- Sinalização: 5 (placas grandes e bem visíveis, aparentemente bem colocadas)
- Segurança/Isolamento do percurso: 4 (houve tentativa de melhora, fechando trechos como o em frente à FEG; mas nos cruzamentos, a coisa ficou meio feia)
- Participação do público: 4,5 (cada vez mais gente assistindo)
- Chegada/Dispersão: 4,5 (meio confusa com o fechamento do lado esquerdo da pista)
- Entrega do kit pós-prova: - (retiraram para mim)
- Qualidade do kit pós-prova: 4 (valeu pelo hidrotônico, mas faltou fruta)
- Camiseta: 3,5 (parece ser ventilada, mas não tem nem etiqueta de tamanho; e ficou apertada)
- Medalha: 4 (é bonita, mas não precisava ser cópia do ano passado)
- Divulgação dos resultados: 4 (lista na hora; no dia seguinte na internet, só tempo bruto)

Média: 4,32


Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/

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