Depositou-se grande expectativa nesta prova desde que ela foi divulgada. Sucesso de público e de crítica em outras cidades onde o circuito já era realizado (Campinas, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Bauru), chegou a São José dos Campos prometendo ser mais um evento de grande qualidade. Enquanto algumas expectativas foram plenamente atingidas, outras nem tanto.
O Rio tem o Aterro, Sampa tem a região do Ibira e São José, bem... São José tem o magnífico Parque da Cidade, palco bonito e adequado para a realização de uma corrida. Mas, como outras cidades, não se resume a apenas isso. Alguns organizadores já se deram conta e diversificaram, usando, com sucesso, outras áreas da cidade tão interessantes quanto. A Oscar Fashion Running e a Unimed Run 10K são exemplos dessa inovação, para ficar em apenas dois. Já alguns outros preferem a solução mais óbvia e conservadora.
Que esportista não gosta de ver de perto grandes nomes da modalidade que pratica, ao vivo e em cores? Talento existe para ser reverenciado. Mas existem diferentes níveis de talento e todos devem ser sempre reconhecidos e respeitados. Criar uma grande festa para uma meia dúzia de ungidos e tratar os outros como resto, infelizmente, é algo que depõe contra o espírito esportivo que se espera de quem promove qualquer evento, sobretudo os de maior porte. E não falo nem em causa própria, já que não frequento e nem tenho a intenção de frequentar pódios. Mas faço minha a voz de gente que merecia mais destaque do que teve hoje.
Há que se louvar as qualidades também, e elas até que existiram. Primeiro, a iniciativa de trazer para a cidade e região uma etapa do circuito. A inscrição, a preços módicos, mesmo para os padrões locais, atraiu um grande número de participantes para a corrida de 6 Km e a caminhada. Segundo, a divulgação. O uso de mídias alternativas (rádio, outdoor, etc.) à boa e velha internet trouxe também para a prova bastante gente que não é "do ramo". Tanto melhor. Quem hoje ainda não é, ao participar, passa aos poucos também a ser. Cidade que tem muito corredor, via de regra, tem também muita corrida. Na entrega do kit na véspera da prova (e apenas nela, sem opção sequer para quem vinha de fora), alguns rostos conhecidos, mas muitos novos também. A informação de que seriam dois mil corredores e mais mil caminhantes trouxe um misto de entusiasmo e preocupação. Bacana saber que seria a maior prova da história de São José (pelo menos da minha história na cidade e em número de participantes), mas, as trilhas estreitas do Parque comportariam tanta gente? Fato agravado ainda mais pelas chuvas dos últimos dias. Quando desabou o mundo na tarde de sábado, as poças que vi no final da manhã se transformariam em verdadeiros "lagos", além daqueles dois que já eram atrações do local. A brincadeira que fiz no Twitter com os amigos seguidores é que teríamos a primeira corrida na lama de Holambra fora de Holambra.
No domingo chegamos, eu e a Janete, bem cedo como de costume. E conseguimos um bom lugar para estacionar, nem muito longe e nem muito enlameado. Garoava fino e o Pavilhão Gaivotas nem assim foi utilizado formalmente como ponto de apoio (na véspera tinha sido). A entrega do chip era feita, sem lista auxiliar, sem cartazes suspensos para maior visibilidade e debaixo d´água. Se o kit com camiseta, boné, garrafinha e amostra de protetor solar já havia sido entregue no dia anterior, por que mais uma fila? Não era excesso de preciosismo? Uma vez regularizado, voltei à parte coberta para me esconder da chuva, bater o tradicional papo com os camaradas (em grande número hoje, satisfação em encontrar a todos!) e fazer um breve, mas importante aquecimento. Um pouco prejudicado pelo atraso na largada.
Ali não tinha muito mesmo o que fazer. A reta onde estava montado o pórtico era um lodaçal só. Querer sair limpo dali era contrariar as leis da lógica. Mas uma ajudinha básica é sempre bem-vinda. O isolamento até se entende, mas poderia ter sido bem melhor planejado e executado. Para a chegada, sem problemas, mas para a largada ficou estreito demais. Quem viesse em linha reta do fundão iria trombar com as grades. A caminhada foi inevitável quando, doze minutos além do previsto, finalmente saímos. Gerando pela primeira vez um gap de mais de um minuto de diferença (no meu caso) entre tempos líquido e bruto em uma corrida local.
Já que era pra ser em um lugar manjado, pelo menos variaram o trajeto. Ao invés de virarmos à direita no final da reta das palmeiras, como em quase todas as corridas por ali, dobramos à esquerda e saímos momentaneamente do Parque, passando por um trecho inédito da estradinha de terra lateral, parte comum das corridas no aniversário da cidade. Só que hoje ela não era de terra, era de lama mesmo. E voando pra todo lado. Tendo deixado para alinhar de última hora, fiquei meio na rabeira e larguei com bastante gente mais lenta à frente. A gente não quer ser (muito) chato com os novatos, até porque já foi também. Mas, cá pra nós, não custa nada ter noção de que sair na frente não vai necessariamente fazer você ganhar dos quenianos. Paciência. Eles são novos, eles aprendem. Nem que tenham que ser atropelados pela manada de feras algumas vezes.
Irônico, o sol apareceu por detrás de uma nuvem para espiar e dar um alô. Por mais que eu o prefira normalmente escondido, dessa vez ele fizera bastante falta, pelo menos antes da corrida, para dar uma secada naquela melequeira toda. O piso já normalmente irregular daquele trecho ficou perigosamente escorregadio. Olhando por onde se andava, já estava meio arriscado. Com o povo todo na frente, sem enxergar direito, então, merecíamos 30% de adicional de periculosidade. Estava vendo a hora que um ia cair de cara no chão ali. Torcendo e tomando cuidado para que esse um não fosse eu.
Meu início de prova seria complicado. Sem conseguir definir um ritmo constante, tendo que sair em ziguezague para desviar, ultrapassar e evitar tombos e trechos ainda mais molhados e lambuzados, procurei no meio da muvuca alguém que costumasse ser companheiro de pace. O Edward eu via à frente, meio ao longe, um dos poucos de laranja entre a multidão de azul, cor da camiseta oficial da prova. Quem largou comigo, sumiu na frente e alcancei pouco depois de voltar ao Parque, foi o Orlando. As placas de quilometragem eram suspensas e estavam até que bem visíveis. Mas o excesso de gente me impediu de ver a primeira. Quando fui olhar pela primeira vez para o relógio, ele já marcava oito minutos. Até me assustei ao ver, pouquíssimo tempo depois, a placa dois, com excelentes 9´16´´. 4´38´´ de ritmo médio era motivo para ficar bem contente, ainda mais tendo que me desvencilhar de meio mundo lá atrás. Se desse pra manter, ótimo.
Mesmo com a temperatura amena, não dispensaria água. Pegaria um copo em cada posto e usaria para me refrescar. No primeiro, havia staffs só na primeira bancada de copos, a segunda era self-service. No segundo, bem mais à frente, um corredor paradão, no pior estilo São Silvestre, complicava à beça a vida de quem vinha com sede. Vai entender o que pensa quem faz isso. A chegada à terceira placa, depois de fazer o grampo e chegar à margem do grande lago, deu a entender que a colocação das mesmas no percurso não era lá muito ortodoxa. Mesmo com a acomodação natural, não vi motivo para meu ritmo despencar para 5´41´´. Não importava. Sabia que minha realidade hoje, naquelas condições de terreno, era tentar ficar abaixo dos 30´. Chegaria à metade da prova abaixo dos 15´, por alguns segundos dentro da meta. Tentaria me manter com foco nela. Mas, mais uma vez, seria traído por uma sensação que tem se tornado meio comum nas provas rápidas ultimamente. O já célebre desconforto estomacal. Chegou um ponto em que ele veio forte e disse: "mantém essa velocidade pra você ver o que faço contigo". Não discuti. O Orlando, gente boa como sempre, até tentou ajudar, mas não conseguiu me levar com ele. Novamente, não era o meu dia. Teria que me conformar em apenas terminar. Reduzi tanto a velocidade que passei na placa quatro com 6´49´´.
O percurso acabaria sendo um pouco diferente do que imaginei quando vi a ilustração no site do evento. Passaríamos em outros trechos novos, que não haviam feito parte de nenhuma outra prova por ali até então. O segundo grampo era bem perto da concentração da largada e chegada e, além do incentivo dos companheiros, tive também o da Janete, registrando em foto minha passagem após o retorno. Sem perceber, tinha conseguido voltar a correr mais forte; e a resposta para isso não estava na cabeça, na verdade estava sob os pés. O chão finalmente voltava a ser confiável. Por alguns segundos, me senti como um náufrago sendo resgatado de volta à terra firme. Passei pela quinta placa com um bom 4´59´´. Mas era tarde para recuperações. Os 27´ que o João Carlos me sugerira antes da prova tentar nos 6 Km, apareceriam praticamente mil metros antes. E tirariam qualquer vontade de tentar um sprint final. Desanimado, vendo a fila indiana à frente e o tamanho que ela tinha até o pórtico, tornei a andar. Desta vez sem estômago embrulhado, subida e nem temperatura acima dos trinta graus. Por pura falta de "volúpia".
Mas não terminaria tão mal assim também. Encaixaria um ritmo de trote para fechar a prova, qualquer coisa parecida com o ideal para uma meia maratona, próximo desafio, por sinal. No retão final e enlameado, perdi o medo de escorregar e resolvi acelerar para tentar passar pelo menos dois "adversários". Um deles se invocou e tentou dar o troco. Estou esperando o photochart para ver quem levou essa, hehehe... Os 32´ e poucos não chegavam a ficar feio (pra mim!), ainda mais levando em consideração as condições da disputa. Mas deixam claro que eu ainda não reencontrei a mão nas corridas de setembro para cá. Por mais que seja lento, tenho consciência de que posso rodar tranquilamente bem abaixo disso. E vou...
Continuo sendo crítico em relação às mesas de frutas. Acho mais justa e racional a entrega do kit convencional na sacola (nem que seja de papel), onde cada um recebe aquilo que lhe foi reservado. Hoje até que a boa educação prevaleceu e não houve ataque predatório, além da quantidade disponível de maçãs, bananas e tangerinas parecer mais que suficiente. Mas eu tive que usar bolso, já que não tinha três mãos (ou cinco, se consideramos o copo d´água adicional e a medalha, que decepcionou um pouquinho ao não ter data, distância, modalidade e só se diferenciar das outras etapas do circuito pelo nome da cidade na fita).
Mas a decepção maior ficaria reservada para logo depois. Desde que me tornei membro da gloriosa equipe 100 Juízo, passei a ter maior contato com gente, da própria equipe e de outras co-irmãs, que está acostumada a ter, como reconhecimento de seu esforço e talento para o atletismo, destaque nas competições. Quem corre bem quer pódio, isso é fato. O que fizeram foi feio à beça: montaram um palco de primeiro mundo, com piso de veludo vermelho e tudo para premiar os cinco primeiros no geral masculino e feminino. E para os três primeiros nas faixas etárias? Sobrou a frase do locutor do evento: "depois vocês passam lá e pegam os seus troféus". Fico triste por gente como o capitão Zebra, o Manoel e a Irma, gente batalhadora, de valor mais que comprovado e que foram hoje tratados como atletas de segunda linha. E fico ainda mais triste como esportista. Atitude lamentável. Que espero que seja revista para as próximas edições, torcendo para que seja mais um evento que se consolide na cidade e região.
Mas não há quem consiga se entristecer tendo amigos como os que eu tenho. Fui convidado, e aceitei com muito gosto, para almoçar com minha família na casa do nosso líder da equipe. Chegando lá, não só fui recebido com a fidalguia de sempre, saboreei uma deliciosa feijoada light preparada pela nossa primeira-dama Judite (de olho na balança, fiquei só no primeiro prato) e reencontrei grandes amigos (além do próprio Zebra, Edward, Natanael, João Carlos e família, Mayke, Jorge e Samira, Mineiro, Michel e Luís Carlos), como descobri que o encontro era em minha homenagem. E por nada demais. Simplesmente por ter criado, nas horas vagas, o site da Equipe 100 Juízo (se alguém ainda não conhece, faço o convite para quem visitem e conheçam um pouco desse bravo grupo de atletas amadores). Como se não bastasse o gesto de amizade e consideração, o capitão Zebra ainda me presenteou com algo muito significativo para mim: o troféu que ganhara do Maurício, organizador do Desafio Ecológico de Pindamonhangaba (31 Km), corrida de altíssimo grau de dificuldade e que fiz no ano passado em circunstâncias muito especiais, com grande comoção pela perda de uma pessoa muito querida. Difícil conter a emoção. São momentos (e amigos) como esses que fazem o meio da corrida ser tão formidável. É ao lado de gente assim que quero estar por muito e muito tempo. Muito obrigado a todos!
Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 4 (internet, boleto)
- Retirada do kit pré-prova: 2,5 (só na véspera, sem lista e deixando o chip para o dia seguinte)
- Acesso: 4,5 (quem chegou cedo estacionou bem, depois ficou complicado)
- Largada: 3 (atraso pequeno, lugar estreito e mal isolado)
- Hidratação: 4,5 (postos suficientes, apesar de pouca gente entregando)
- Percurso: 4 (é legal correr no Parque, mas está ficando manjado demais; pelo menos mudaram um pouco o trajeto)
- Sinalização: 4 (placas suspensas e visíveis, com exceção da primeira; a terceira tenho certeza de que estava errada)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (isso não tem como ser ruim dentro do Parque)
- Participação do público: 5 (alguém ter saído de casa no horário de verão e com essa chuva já é milagre)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: 4 (método self-service)
- Qualidade do kit pós-prova: 4 (pelo custo até que compensou, mas sempre pode ser melhor se tiver barrinha e isotônico, entre outros mimos)
- Camiseta: 4 (parece que era pra ser regata da corrida e normal para a caminhada, mas ficou meio confuso; achei até bonita, mas mesmo a G ficou apertada no ombro)
- Medalha: 3 (não é feia e até que tem bom tamanho; mas pecou pela falta de informações e por ser padronizada para todo o circuito)
- Divulgação dos resultados: - (aguardando, por enquanto o que está lá é de etapa anterior)
Média: 4,04
Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/