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A Visão do Corredor - 8ª Corrida Pedestre Francisco Bueno


De calor, quem me conhece sabe, eu só gosto em uma situação: na praia, de preferência comendo espetinho de camarão e tomando cerveja gelada (ambos muito de vez em quando). Pra correr, Deus me livre! Meio saturado por mais uma longa sequência de provas (com essa, dez em sete semanas), tinha até desistido de fazer, retirado do calendário inclusive. Mas, na quinta-feira, último dia de inscrições e deliciosamente nublado, mudei de ideia. Boas lembranças de participações anteriores, principalmente a de 2007, foram a principal causa da guinada radical. Até então, pensava que ia sozinho, levando no máximo a torcida familiar.

No domingão, um bem diferente por sinal, acordando às 09h30min da manhã, tão mais tarde que em tantos outros, me liga o Capitão Zebra, dizendo que também iria para Guararema, mas apenas como apoio aos atletas da 100 Juízo devidamente inscritos: Natanael, Mayke e João Carlos, além de mim. A gente até acredita, né? Quase não corre, o tal cidadão... Depois de novamente reunirmos a cambada na Gruta e pegarmos a habitual estrada velha, chegamos à igreja da Freguesia da Escada, local da concentração dos atletas, já começando a bombar. Lista divulgada, pouco menos de cento e cinquenta participantes. O nosso cacique conta os que são da faixa etária dele e constata: o pódio era realidade mais que palpável. Esquece fisgadinhas e que tais e corre atrás de uma vaga, que consegue facilmente. Ele apoiaria sim, mas o troféu, acima da cabeça!

Mesmo com poucos corredores presentes, muitos deles eram velhos conhecidos. Irma, Alexandre, João, Mineiro (hoje de fotógrafo freelancer), Higino, Riso, Éber, Chico, Sr. Adão, Zeferino. Muito bom reencontrar a todos. As mulheres e os teens correriam apenas 6 Km. Os demais guerreiros, o dobro disso. Distância atípica para provas de rua, encurtada em relação às edições anteriores, com a exceção de 2008 (na qual não estivera presente). Com só uma prova desta distância no currículo (a do Trabalhador, em Moreira César) e com um tempo apenas razoável (1h02min) nela, minha meta de hoje se resumia a tentar pelo menos igualar este resultado. Mas, ao despertar pouco depois das seis da manhã com uma "lua cheia" enorme brilhando na janela, percebi de cara que seria missão inglória. A cada minuto que passava, a potência do micro-ondas aumentava. No que fui fazer um trotinho pra aquecer nos arredores, já estava quase grelhado. Torcendo para, pelo menos, não haver atraso na largada.

Fomos nos posicionar na ruazinha à esquerda do pátio da igreja, na qual o pórtico estava montado e, com pouco menos de dez minutos além do previsto, saímos meio que no susto. O percurso era velho conhecido das edições anteriores, mas com o diferencial de não ser circular, mas em ida e volta, desta feita. O grupo se espalhou rapidamente, com os ponteiros disparando. Passamos por uma ponte por sobre o Paraíba do Sul e seguimos estrada de terra afora, levantando um poeirão danado. Tinha como companhia o João, que em Taubaté, duas semanas atrás, já havia proposto a parceria. Estreando em distâncias acima dos 10K, ele começava ditando um bom ritmo. Parecia próximo aos 5´ cravados, mas a primeira placa chegaria com menos, apenas 4´46´´. Num dia frio, eu até topava. Debaixo daquela bolona amarela, nada feito. Sem querer prejudicar a prova de ninguém, nem mesmo a minha, maneirei instantaneamente. Já respirava com certa dificuldade.

Na minha primeira corrida guararemense, em 2006, além do calor, o que tinha pegado pra valer era a falta d´água. Foram tão poucos os postos que, lembro bem, chegou a dar desespero. Não fossem as donas boazinhas com mangueiras, a coisa tinha ficado ainda mais feia. Dessa vez, não seria pra tanto, água gelada aparecendo desde cedo ajudaria bastante. Restava apenas saber se seria suficiente para combater a sensação de abafamento total, que também veio muito precocemente. O ritmo, estranhamente (não tínhamos diminuído tanto assim), caiu para 5´35´´ no segundo quilômetro. Já começavam a surgir as célebres variações altimétricas do percurso. Não seriam insanas e nem a principal dificuldade da prova, mas colaborariam bastante. Contra. Na primeira um pouco mais forte, eu decidi que não seria "âncora" para o companheiro de prova. Parei, disse para ele seguir. Ele foi bacana e leal, relutou, disse que não estava ali para fazer tempo, mas para treinar. Insisti. Se fosse para estragar a corrida, que fosse só a minha.

Desistir por conta de uma lesão ou para evitar uma, é bom senso. Desistir por qualquer coisinha, é frouxidão. E criar o hábito de desistir só porque fica na cara que a maré não está pra peixe, definitivamente, não é algo que quero pra mim. Tinha certeza absoluta que ia fazer uma corrida horrorosa dali pra frente, mas não estava dando muita bola pra isso não. Seguia, no piloto automático, me arrastando, fazendo paces altos, na casa até dos 7 minutos por quilômetro. Ensaiaria uma recuperação adiante, mas sem muito sucesso. Logo começaria a encontrar gente voltando, primeiro o pessoal dos 6K, depois, bem mais pra frente, os amigos retornando da metade do percurso de 12. Ouviria tanto incentivos, como perguntas sobre o que estava acontecendo comigo. Bem que eu gostaria de saber. Passei por dois molequinhos que falaram: corre mais rápido! Bem que eu gostaria de correr...

Na bifurcação pouco antes de iniciar o retorno, reencontrei o João, que se surpreendeu ao ver que eu não havia desistido. Mandou uma força e seguiu. Cheguei à metade da prova com 37 minutos, tempo já bastante alto, mas ainda aceitável, projetando 1h14min ao final. Sabe-se lá porque, no entanto, cheguei até a placa seis e parei. Abri um copo d´água já começando a ficar morninho e, tomado por um estranho desânimo, comecei a andar a passos lentos. O trecho era plano, o calor era forte, mas ainda suportável, bem abaixo do encontrado em provas como a Meia Maratona Frei Galvão de 2007, por exemplo. Mas o fato é que eu me sentia na areia fofa de Itaguaré. Ainda bem que com apenas 6 e não 21 Km para voltar.

Pra ser sincero, já tinha perdido qualquer interesse em tempo, talvez na própria corrida. Queria era voltar e jogar meia dúzia de copinhos na cabeça. Andei praticamente todo o Km 7, fechando-o com quase dez minutos. Brinquei, de passagem, com um corredor que também andava, dizendo que daquele jeito ia demorar demais, o negócio era trotar. E foi o que fiz, pelo menos nas partes planas. O quilômetro oito teve tempo voltando a começar com seis, mesmo no limite disso. Difícil era manter a motivação. Qualquer tentativa de voltar a correr trombava com um morrinho enjoado ou uma sensação pra lá de incômoda de superaquecimento. Seguia assim, alternando trotinhos e caminhadas.

No Km 10, não sei se mais curto ou com mais descidas, até voltei a fazer um pace condizente com a normalidade, de 5´38´´. O Natanael, há muito tempo com a prova encerrada, me encontraria andando em mais uma subida. Se outros amigos corredores estivessem por ali, eu pediria pra que ele fosse buscá-los, já que a minha vontade era de assim seguir até o fim da prova. Mas não era o caso. Sem opções, não recusaria a gentil ajuda do grande camarada de equipe, sempre solidário com os colegas (bem) menos velozes. Pedi para que ele puxasse um ritmo um pouco mais forte, para ver se eu conseguia acompanhar. E estranhei quando vi a parcial de 6´34´´ no penúltimo quilômetro. A placa com o onze em fita crepe, que eu dissera antes da prova para os staffs que era a que todo mundo queria ver, finalmente apareceu, mas não me animei nem mesmo assim. Botei o Nata pra andar e bater papo, até finalmente a pontezinha do início da prova reaparecer. Hoje, definitivamente, era dia melhor para pescar do que pra correr. Da próxima vez, levo molinete ao invés de tênis.

Mesmo com tão pouca velocidade na reta (e ladeirinha) final, cheguei acabado, resfolegando, ávido por água ou qualquer outra coisa líquida semelhante que pudesse jogar goela abaixo. O Capitão surgiu com uma caixa de suco de maracujá, que eu sequei de dois goles. Na escada da freguesia sentei e fiquei. Nem precisava, mas a rapaziada ainda deu uma força extra, tirando inclusive o chip do tênis e indo buscar o kit (banana, maçã e medalha estilo honra ao mérito com adesivo torto) pra mim. A camiseta, toda furadinha, combinando com o clima do dia, havia sido entregue antes da prova. Esses são os meus companheiros de equipe: além de grandes corredores, verdadeiros esportistas, no sentido mais amplo da palavra. E amigos, daqueles que dá gosto da gente bater no peito e dizer que tem. Agradeci também ao João por toda a boa vontade demonstrada para comigo. É algo que penso sempre: não há como não se tornar também mais solidário, diante de tantos bons exemplos que vemos nas corridas por aí. Bom seria se assim fosse em todos os outros lugares também.

O meu tempo final era impublicável, uma das piores médias de velocidade de todas as minhas corridas até hoje. Mas, aqui pra nós, liguei bem menos pra isso do que cheguei a imaginar que seria. Calor à parte, simplesmente não dava pra levar em consideração aquela segunda metade. Não dá pra negar, é mais do que óbvio que não vivo um bom momento como corredor, depois de ver meus principais projetos do ano ficarem longe de dar certo. Estou ciente de que tenho que rever e repensar algumas coisas. E também resgatar outras que fazia certo antes e, por algum motivo, deixei de fazer. Mas uma coisa é certa: não vou transformar o meu hobby, o meu lazer (e às vezes até a minha válvula de escape) em mais uma fonte de estresse. Continuarei enquanto as corridas me trouxerem prazer. Mesmo que não seja sempre e em tempo integral. E que ninguém duvide que a volta por cima está por vir.

100 Juízo novamente brilhando no pódio: Zebra e Mayke, ambos em segundo lugar nas suas categorias. Para quem não ia nem correr (ah, tá!), ficou de ótimo tamanho, hein, capita? Parabéns aos dois e também à Irma, primeira em sua faixa etária. E também a todos que estiveram em mais essa corrida. Até as próximas!

P.S.: Na falta das nossas "nutricionistas", o rango pós-prova de hoje foi sanduba de mortadela mesmo. Não é torta de frango nem onigiri, mas cai bem à beça também, hehehe...

Avaliação: (1-péssimo 2-ruim 3-regular 4-bom 5-excelente)
- Inscrição: 3,5 (era grátis e passou a ser paga, só boleto)
- Retirada do kit pré-prova: 5 (tranquila)
- Acesso: 5 (fácil de achar e de estacionar perto)
- Largada: 4 (atraso pequeno, um pouco confusa)
- Hidratação: 4,5 (foi boa, mas podia ser um pouquinho mais reforçada por conta do calor)
- Percurso: 5 (mesmo em ida e volta ao invés do circuito, continua interessante)
- Sinalização: 4,5 (placas visíveis; pelos tempos, resta saber se colocadas nos lugares corretos)
- Segurança/Isolamento do percurso: 5 (funcionou bem)
- Participação do público: 4 (alguns espectadores no trajeto, bastante gente na igreja)
- Chegada/Dispersão: 5 (sem problemas)
- Entrega do kit pós-prova: - (retiraram pra mim)
- Qualidade do kit pós-prova: 3 (fraco)
- Camiseta: 2 (como disse a Tereza sobre a de Taubaté, dá pra limpar a casa)
- Medalha: 2 (o adesivo transparente e torto piorou a simplicidade; sem data e nem distância)
- Divulgação dos resultados: 3,5 (rápida na parede, no dia seguinte na internet, só tempo bruto)

Média: 4




Fabio Namiuti
http://fabionamiuti.hd1.com.br/

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